Índios 'penhoram' cartões
Na família do cacique Nelson Vargas há quatro pessoas aposentadas. Todas procedem mais ou menos da mesma maneira. Deixam ''penhorado'' o cartão no armazém de secos e molhados, compram primeiro e pagam depois. Estão sempre com saldo devedor. O cacique afirma que já tentou convencer a mãe e os três tios dele a esperarem o dia de receber para fazer as compras. ''Mas ninguém me deu ouvidos'', resmungou.
Jerônima Vargas, 69 anos, seis filhos, mãe do cacique, diz que os R$ 188,00 que recebe não são suficientes para todas as despesas. Ela acredita que os comerciantes não são ''tão honestos'', mas acha que não conseguem enganá-la. ''Não sou tonga'', brincou. Apesar de não saber ler, a aposentada diz que se lembra de tudo o que comprou e faz as ''contas de cabeça''. Jerônima garantiu que no próximo pagamento ela vai ''resgatar o cartão''.
O índio Mendes Vargas, 62 anos, tio do cacique, recebe duas aposentadorias, a dele e da esposa falecida. Ele reclama que o dinheiro é insuficiente para as despesas. Mesmo morando sozinho e recebendo R$ 376,00, ele não consegue quitar a conta no armazém.
''Compro de tudo e reparto com os parentes''. Raramente compra roupas. Ele desconfia que o ''comerciante rouba na conta'' e está decidido a comprar à vista logo após receber o 13º salário. O irmão dele, Aparecido Vargas, 73 anos, conta a mesma história e pretende tomar a mesma atitude. ''Vamos tirar o cartão da penhora''.
Se, para alguns índios a aposentadoria acrescenta atributos, fazendo com que se tornem ''partidaços'', outros não podem dizer o mesmo. O aposentado José Vargas, 68 anos, viúvo, está há meses atrás de uma companheira. ''Vivo jogando tarrafa, mas não pesco nada'', compara. Ele acha que o salário ajuda a conquistar e não sabe porque até agora não conseguiu se casar de novo. Ele quer uma esposa índia, que tenha entre 30 e 40 anos ''Não quero misturar minha nação'', justifica. (M.B.)





