O controle dos sintomas da menopausa e andropausa somado à crescente oferta de estimulantes sexuais constituem o lado positivo no aumento da expectativa de vida do brasileiro. A outra face da moeda é o aparecimento e avanço de doenças que antigamente não chegavam a essa faixa etária. A Aids é um bom exemplo. Segundo o Ministério da Saúde, de 1980 a março de 2001 foram diagnosticados, no Brasil, 4.025 casos de pessoas com mais de 60 anos infectadas pelo HIV, o vírus que transmite a Aids. Entre eles, 3.001 são homens e 1.024 são mulheres. Essa faixa etária corresponde a 1,9% dos 210.452 registrados no mesmo período.
Com mais disposição, o prolongamento da atividade sexual na terceira idade é uma consequência natural que tem sido cada vez mais incentivada. Sem dúvida, esse ganho deve ser aproveitado, mas com responsabilidade. A relação sexual continua sendo o principal meio de transmissão do vírus entre os infectados: 53,5% do total, conforme o Boletim Epidemiológico da Aids elaborado pelo governo federal até março. ''Entre os idosos, essa porcentagem chega a quase 100%. O problema é que, geralmente, eles são mais resistentes ao uso do preservativo e isto é um perigo para o avanço da doença na terceira idade'', alertou o infectologista do Hospital Universitário (HU) de Londrina, André Luiz Bortoliero.
O aparecimento de moléstias oportunistas é um risco para qualquer portador do HIV à medida que ele destrói a célula chefe do sistema imunológico chamada CD4. Na terceira idade, a fragilidade do organismo é maior, por isso a probabilidade de infecções entre os soropositivos desse grupo também aumenta. ''O número de infectados pelo HIV nessa faixa etária ainda é pequeno, mas a tendência é crescer porque a proporção de idosos no mundo é cada vez maior'', acrescentou o infectologista.
A crença de que os avós não praticam mais sexo, de que Aids é uma doença de jovens que afeta, principalmente, os usuários de drogas, prostitutas e homossexuais vem sendo derrubada pelas estatísticas. Hoje em dia, não há mais grupos de risco e todos devem se prevenir. Essa é uma novidade que aos poucos vem sendo difundida pelos profissionais da saúde, mas que ainda esbarra no preconceito.
''Não há preocupação em orientar os idosos. Quanto mais pobre menos informado ele é. No consultório, os médicos suspeitam de todo tipo de doença menos da Aids'', lembrou Ione Barth, membro de um dos grupos de terceira idade do Sesc/Centro. Em entrevista à Folha, 50 idosos entre 65 e 70 anos confessaram o medo da doença e a dificuldade em exigir prevenção. ''Isso vai desde a manicure que deve esterilizar o alicate de cutículas até o marido que se recusa a usar a camisinha'', lembraram as mulheres que correspondem a 90% dos 360 idosos atendidos pelo Sesc.
O receio de ser mal interpretado e julgado pela sociedade é um obstáculo para a discussão da sexualidade nessa etapa da vida, salvo algumas exceções. Embora culpem o governo de descaso, eles sabem que a iniciativa deve partir de cada um deles. ''Temos que ser fiscais e cobrar nossos direitos'', disse a dona de casa Alexandrina Sandra Lessa, de 72 anos.

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