Londrina – Dois incêndios de grandes proporções mobilizaram as equipes do Corpo de Bombeiros nesta semana, em Londrina. O mais recente foi registrado na madrugada de quarta-feira, em uma central de mototáxi, na avenida Dez de Dezembro. Já o primeiro, de maior repercussão, destruiu a casa de shows Mansão Palhano, na zona sul da cidade, na noite de segunda-feira. Nos dois casos, ninguém ficou ferido, mas as estatísticas dos bombeiros mostram que nem sempre os prejuízos são apenas materiais.

Nos últimos cinco anos, 145 pessoas morreram vítimas de incêndios em edificações no Paraná. Os dados do Corpo de Bombeiros são ainda mais alarmantes por não levarem em conta as mortes posteriores, em leitos de hospitais. O levantamento feito pela FOLHA com base nas ocorrências oficiais apontam o registro médio de 12 atendimentos por dia para controlar chamas em casas ou estabelecimentos comerciais. São 4,6 mil ocorrências por ano, número equivalente ao total de domicílios de Porecatu (Norte). Em cinco anos, é possível afirmar que o total de prédios atingidos pelo fogo corresponde a toda Pato Branco (Sudoeste), que tem 23 mil domicílios.

Os grupos mais vulneráveis às mortes em incêndios são os de crianças e idosos que, juntos, representam quase metade das vítimas (47,8%). Outro grupo de risco é o de pessoas com idades entre 45 e 59 anos, que registrou 27,5% dos mortos. Das 102 vítimas que tiveram o gênero divulgado, 65,6% eram homens e 34,4% mulheres. Os 43 restantes eram crianças ou adolescentes (cujos nomes não são divulgados) e adultos de gênero não divulgado.

Com 11 mortes, Guarapuava lidera a lista de mortos, seguida por Curitiba (10), Palmas (5), Toledo (5), e Almirante Tamandaré (4). A maioria delas tem duas características em comum: baixas temperaturas e muitas casas de madeira. Segundo o aspirante do CB, Rogério Moreto de Jesus, a maioria dos registros de incêndios se refere a moradias. "O alto número de ocorrências nem sempre é de prédios destruídos. Muitos casos são de focos controlados, principalmente em casas. As de madeira são as mais críticas", relatou.

Em Almirante Tamandaré, na região metropolitana de Curitiba, as mortes de Jacira dos Santos, de 70 anos, do filho Claudinei dos Santos, 45, e da neta Giovana, 7, há pouco mais de um mês, chocaram os moradores e deixaram toda a cidade de luto. Segundo vizinhos, o fogo se alastrou rapidamente e tomou conta de toda a casa de madeira. Os corpos carbonizados foram recolhidos ao Instituto Médico Legal de Curitiba (IML). O Instituto de Criminalística investiga as causas do incêndio.

Segundo os bombeiros, colocar uma bacia com álcool e atear fogo ou acender carvão em ambientes fechados ainda são hábitos bastante comuns das famílias, principalmente as mais pobres. Os métodos de aquecimento precário, entretanto, são considerados perigosos e podem resultar em mortes. "Não trabalhamos com uma relação direta entre número de incêndios e clima frio, mas os aquecedores improvisados ainda são bem comuns. Qualquer chama dentro de casa é um risco potencial de incêndio", alertou o tenente do 3° Grupamento dos Bombeiros de Londrina, Rodrigo Costa.

Em novembro do ano passado, um acidente com um vela acesa matou duas crianças em Pinhão, na região central do Estado. Os dois meninos, um de cinco e outro de sete anos, morreram. Segundo Costa, acidentes com velas diminuíram nos últimos anos, mas ainda é registrado, principalmente entre idosos. A recomendação dos bombeiros é que as velas sejam deixadas longe de produtos inflamáveis, papéis, cortinas, ou outro tipo de tecido. Dos 145 mortos, 32 tinham mais de 60 anos.


FRAGILIDADE DOS PEQUENOS

No outro extremo, o cuidado com as crianças também é questão primordial para evitar acidentes com fogo. De 2010 a 2014, foram 37 mortos com menos de 14 anos. Grande parte dos incêndios nesta condição ocorreu pela falta de supervisão dos pais ou responsáveis. Costa ressalta que o fogo causa fascínio nas crianças. "Nada substitui a supervisão dos responsáveis, mas como basta um minuto para que tragédias ocorram, é preciso manter geradores de chamas e produtos inflamáveis longe do alcance das crianças. Parece óbvio, mas os dados mostram que não é isso o que acontece", lamentou.

O caso mais emblemático ocorreu em junho de 2011, em um sítio na região de Vila Nova Esperança, em Catanduvas, no Oeste. Três crianças com idades entre dois e seis anos morreram carbonizadas. Segundo inquérito da Polícia Civil, os pais teriam saído pela manhã para ordenhar as vacas e quando voltaram encontram a casa em chamas.

As panelas deixadas no fogo e os ferros elétricos esquecidos ligados na tomada completam a lista dos principais causadores de incêndios causados por falha humana. "Um caso comum é da pessoa que chega de uma balada, por exemplo, coloca alguma coisa no fogão e esquece. Esse tipo de desatenção é muito comum".

Nas casas ou estabelecimentos que ficam constantemente sem a presença dos ocupantes, os incêndios por pane elétrica representam quase a totalidade dos incêndios. Neste caso, os bombeiros apontam uma falha humana indireta, pela falta de manutenção da rede elétrica. "A verificação do estado das fiações é muito importante para evitar surpresas desagradáveis, assim como evitar sobrecarregar as tomadas", orientou.

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