Imóveis financiados em área de risco
Jataizinho - Há cinco anos, César Augusto Goulart de Campos, de 25 anos, sofreu um acidente automobilístico que o deixou em uma cadeira de rodas. Com o dinheiro do seguro DPVAT e com a liberação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), resolveu adquirir a sonhada casa própria, há três anos. Por meio do Banco do Brasil, ele financiou um imóvel na Vila Lucarewski, em Jataizinho. Queria tranquilidade para assimilar uma nova vida de limitações.
Igual a dele, há outras sete casas na Rua Bahia, ao lado do Estádio Dionísio Striquer. Todas geminadas no mesmo padrão: com portões de grades horizontais, telhados em duas águas, com frente de pouco mais de seis metros, sendo a garagem recuada no lado direito. Quintal na frente e nos fundos. A planta agradou Campos, que fechou o negócio. O que ele e outros sete moradores não sabiam, porém, é que mesmo se tratando de contratos firmados com uma instituição federal, com o aval do Setor de Habitação da Prefeitura de Jataizinho, os imóveis estão situados em área de risco.
A menos de 200 metros dali, o Ribeirão Jataizinho corta a cidade até desaguar no Rio Tibagi. O problema é que quando o Tibagi - segundo maior rio paranaense registra cheia, toda a vazão do Ribeirão Jataizinho fica represada, o que causa enchentes nas regiões de fundo de vale. Em 25 de novembro do ano passado, a reportagem da FOLHA flagrou Campos sendo carregado às pressas por dois parentes, enquanto a água já atingia quase um metro de altura dentro da casa dele. Ele não esperava que o problema se repetisse tão rápido. "Desta vez foi bem pior", conta a dona de casa Maria José Goulart, de 49 anos, mãe de Campos.
"Quando ele comprou esta casa, nem imaginava que isso poderia acontecer. Acho que ninguém aqui sabia, senão não compraria, né?", comenta. Mesmo após a enchente de novembro, Maria José ainda pensava em construir uma edícula nos fundos. Ela mostra os vestígios de materiais de construção que resistiram à força da água.
Com a nova enchente, em que o Tibagi atingiu os seis metros acima do nível normal, a dona de casa já pensa em desistir da ideia. "É muito perigoso continuar aqui. Queria me livrar do aluguel, mas por enquanto vou manter minha casinha. É para lá que levo ele quando inunda aqui", conta.
Segundo a Defesa Civil do Município, há outras casas financiadas no mesmo modelo em áreas de risco. A reportagem procurou a Prefeitura de Jataizinho e o governo federal para buscar uma resposta para Campos e outros moradores que sofrem com o mesmo problema. A administração municipal, que emite o Habite-se, documento que comprova que um empreendimento ou imóvel foi construído seguindo-se as exigências do Código de Obras, foi contatada por meio do Departamento Jurídico e Secretaria de Governo, mas ninguém retornou as ligações. Já o Banco do Brasil não retornou o contato até o fechamento da edição, mas informou que a questão será avaliada nos próximos dias pelos responsáveis técnicos.
RECUSA
Se no início da semana, o martírio do operário Thiago Benjamin Pinheiro, de 27 anos, era o excesso de água, que invadiu a casa dele até a altura da cintura, na quinta-feira a falta dela era o que lhe afligia. No final da tarde, a reportagem flagrou Pinheiro carregando vários galões de água mineral em um carrinho de mão. Era tudo o que tinha em casa, na Vila Pimenta, em Jataizinho. Enquanto lamentava a enchente e mostrava os danos, foi surpreendido por quatro pessoas dentro de uma caminhonete grande no portão. Era um grupo de voluntários, que preferiu não se identificar, com várias doações.
Pinheiro, que até então não sabia como iria alimentar a esposa e os filhos naquela noite, ganhou cestas básicas, roupas e um fogão usado. "Tem parente que tem dois e não é capaz de doar um. Ainda bem que existe gente boa neste mundo", comemora. Na varanda, um berço jogado da filha de 1 ano dá noção do drama enfrentado. "É um filme de terror. Você não sabe se sai e encara a chuva com as crianças ou tenta ficar um pouco mais com a água subindo", lembra.
O operário conta que sabe que mora em área irregular, mas diz não ter condições de pagar aluguel na cidade.(C.F.)





