Ilha de Marajó tem a 'cidade das bicicletas'
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domingo, 08 de novembro de 2015
Anderson Coelho e Carolina Avansini
O município de Afuá, localizado ao Norte da Ilha de Marajó, no estado do Pará, guarda muitas peculiaridades. Além de ser conhecida como a Veneza Marajoara, por localizar-se sobre afluentes do Rio Amazonas, é também a "cidade das bicicletas". Em Afuá, não existem carros, motos ou qualquer outro meio de transporte motorizado. Sujeita às cheias dos rios, a cidade foi totalmente construída sobre vias suspensas de madeira, que não suportam o peso dos veículos. Por isso, para se locomover, afuaenses de todas as idades utilizam as mais criativas e interessantes bicicletas.
O prefeito Eliudo Pinheiro conta que a Veneza Marajoara soma 37 mil habitantes em uma área de quase 9 mil quilômetros quadrados. Desse total, 13 mil pessoas se concentram na zona urbana. Não há definição de mãos e contramãos nas ruas, por isso, um dos projetos da prefeitura é implementar sinalização horizontal e vertical, além de programas de educação para o trânsito.
Algumas vias da cidade já começam a ser substituídas por concreto, uma necessidade urgente, segundo o prefeito, diante da ampliação constante da área urbana no município. "Precisamos de apoio do governo federal", reivindica, lembrando que a mudança não implica na possibilidade de liberar carros. "A população não almeja outro tipo de transporte. Aqui, quando as pessoas querem um veículo melhor, investem em lanchas ou bicitáxis", conta ele, referindo-se à invenção do artista Sarito Souza, que há 30 anos teve a ideia de adaptar a estrutura das bicicletas para um veículo de quatro rodas capaz de transportar mais pessoas. Hoje, o bicitáxi transporta famílias e também faz as vezes de carro de bombeiros e ambulância, que tem uma maca adaptada.
Sarito, o inventor do bicitáxi, conta que teve a ideia porque queria um meio de transporte para andar com as crianças. O primeiro protótipo que ele criou tinha três rodas. "Eu queria um veículo com mais conforto", relata, lembrando que foi chamado de "doido" por muita gente. "Quando o bicitáxi ficou pronto, surpreendeu todo mundo", comemora.
Como as crianças gostaram do novo carro, Sarito equipou com luz e som e passou a cobrar por passeios. "Foi um sucesso. Nessa época dei o nome de bicitáxi. Foi um invento que deu certo, Afuá foi reconhecida internacionalmente por causa dele", comemora, destacando que veículos de comunicação de todo o mundo já foram até a cidade mostrar o sucesso da invenção.
Sarito é artista plástico, radialista e dá aulas de artesanato. "Acordo cedo, vou para a rádio, trabalho em pintura, à tarde vou para a escola e assim vou vivendo", simplifica. Para ele, morar em uma cidade cujo meio de transporte de todos é a bicicleta é um grande privilegio. "Faz bem para a saúde, não dá despesa com combustível, não polui meio ambiente e todo mundo pode comprar. Todas as casas aqui têm várias bicicletas, é muito importante para a gente", avalia ele, lembrando que, em Afuá, "a coisa mais difícil é alguém morrer de infarto". "Aqui também não tem obeso, a população faz exercícios e respira ar puro", comenta. Segundo ele, também são raros os acidentes e, quando ocorrem, normalmente envolvem turistas. "A gente se entende no olhar. Quando o ciclista ouve um assovio, é só um pedido de licença", relata.
Como toda pessoa criativa, Sarito não para de pensar em inovações. A ideia que ronda a cabeça do inventor atualmente é o pedalinho, que ele pretende apresentar para as crianças irem à escola em grupos de oito ou dez pessoas. Em Afuá, quem faz o transporte dos estudantes são os barcos, que muitas vezes atrasam. "Com o pedalinho, as crianças poderão chegar mais rápido, se revezando no pedal. E ainda fazem exercícios", planeja ele, que se considera feliz por ser afuaense. "É um privilegio morar em uma cidade diferente de todas as outras do mundo."
Manutenção
Genivaldo Santos ganha a vida graças ao principal meio de transporte de Afuá. Ele tem uma bicicletaria e também conserta as bikes e bicitáxis. "Em junho e julho, quando temos muitos turistas, teria serviço para trabalhar 24 horas por dia", conta ele, que traz peças de Rondônia, de Macapá e Castanhal. "Já conheço os gostos dos clientes, trago as peças e monto", acrescenta.
O comerciante tem um escritório organizado. O computador é usado para imprimir os boletos para pagamento das parcelas das aquisições. "Aqui ninguém usa muito cartão, por isso não tenho máquina", explica.
Se a bicicleta garante o transporte da população na zona urbana, o mesmo não vale para as localidades "escondidas" no meio da floresta. "Jeremias Aparecido Resende de Souza", diretor de vigilância epidemiológica, conta que é muito difícil chegar em algumas comunidades "no meio da água". A prefeitura realiza caravanas para levar serviços de saúde, mas não tem condições de manter profissionais fixados nos locais longínquos. "O governo federal protocola projetos e não vê quem está na ponta, não consideram as peculiaridades de cada região", critica.
Mesmo assim, com ações em educação, a cidade conseguiu reduzir os casos de malária de 2020 para 447 pessoas doentes em 2014.
- Reportagem elaborada a partir de relatos colhidos pelo repórter fotográfico Anderson Coelho durante viagem a Afuá