IDOSOS - As ciladas do empréstimo consignado
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domingo, 04 de novembro de 2012
Silvana Leão <br>Reportagem Local 
Dificuldades para quitar a dívida antes do prazo previsto, ausência de informações sobre o valor total a ser pago e falta de clareza sobre os inconvenientes gerados pelo comprometimento da renda mensal. Estes são alguns dos problemas enfrentados, principalmente por pessoas idosas, que recorrem a empréstimos consignados. Casos de pessoas superendividadas, que acabam se arrependendo de ter recorrido a este tipo de produto, são tão comuns que o Ministério Público Federal acaba de lançar uma campanha esclarecendo os idosos sobre o assunto.
Nas quatro cidades paranaenses que concentram o maior número de abusos contra idosos relatados através do serviço Disque Idoso, da Secretaria Estadual de Justiça (Seju), as acusações de abuso financeiro são a principal causa de denúncia. Somando os casos registrados em Curitiba, Londrina, Maringá e Foz do Iguaçu, de janeiro a setembro foram 207 relatos de abuso financeiro contra 204 de agressões verbais e psicológicas. Já no Procon de Londrina, de 1º de janeiro a 24 de outubro deste ano, houve 83 reclamações contra financeiras registradas por pessoas acima de 60 anos, o que indica uma média de duas reclamações por semana.
Na avaliação de uma ex-funcionária de financiadoras ouvida pela FOLHA, há casos ''desumanos''. Foram muitas as experiências vividas nos cerca de sete anos em que ela trabalhou na área, muitas delas ligadas ao fato de que estas empresas recorrem a diversos expedientes para não perder o cliente.
Segundo a ex-vendedora, que prefere não ser identificada, hoje é muito comum a compra da dívida por outra instituição de crédito. Com esta operação, a pessoa geralmente consegue pegar um pouco mais de dinheiro e manter o valor da parcela. Para evitar que este recurso seja utilizado, não são poupados esforços por parte das financiadoras. ''Uma das formas de manter o cliente na carteira é trabalhar com mais de uma bandeira de banco. Assim, é possível 'vender' a dívida sem mudar de financiadora.''
Diante do risco de perder o cliente para uma concorrente, um grande empenho é canalizado para evitar a emissão da carta de quitação, documento que traz o cálculo atualizado do valor a ser pago. Ele é necessário para a venda da dívida ou para que ela seja paga em uma única parcela. ''Só que como é bem mais raro que a pessoa tenha realmente a intenção de quitar, eles partem do princípio de que a pessoa está querendo vender a dívida para uma concorrente. Por isso, quando a operação de venda e compra da dívida é feita dentro da própria financiadora, a carta é liberada sem qualquer dificuldade. Mas se o cliente estiver realmente disposto a fazer a quitação ou tiver a intenção de mudar de financiadora, terá que ter paciência'', revela a ex-vendedora.
A burocracia imposta é grande e, de acordo com ela, em alguns casos o documento nem chega a ser liberado. Em outros, demora tanto para ser enviado ao cliente que, quando ele recebe em casa, via Correios, a data limite para pagamento já passou. ''Isso tudo porque a quitação não interessa às financiadoras. Certa vez trabalhei em uma destas empresas em que o meu chefe dizia claramente que ali era proibido liberar carta de quitação. Se liberássemos, perderíamos o emprego'', revela.
Ela também explica por que há uma grande insistência em fazer com que o cliente opte pelo maior prazo possível, que é de 60 meses: ''Quanto mais longo o prazo do financiamento, mais elas ganham''. A ex-vendedora conta ainda que é comum os atendentes da financiadora serem treinados para não fazerem na frente do cliente a conta de quanto ele pagará ao final. ''É preciso mascarar, iludir o idoso. Por isso, quando ele procura a financiadora pela primeira vez, é muito bem atendido, encontra pessoas dispostas a ouvi-lo e a lhe dar toda a atenção do mundo, coisa rara no mundo de hoje.'' Foram tantos anos omitindo informações e levando pessoas a se endividarem que, no ano passado, a vendedora abandonou o trabalho em financiadoras.


