IDENTIDADE - Escola reforça valorização da cultura
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sábado, 28 de junho de 2014
Diego Prazeres<br>Reportagem Local 
Tamarana - As instalações são precárias. Há vidros quebrados nas janelas das salas de aula, a pintura foi levada pelo tempo. Num espaço de cimento batido, dois aros de basquete indicam que ali é a quadra de esportes. Mas em meio a um ambiente escolar aparentemente desfavorável, cerca de 300 pequenos alunos caingangues da Terra Indígena Apucaraninha são ensinados a preservar a sua cultura desde cedo. É impossível entender o que eles falam nas brincadeiras e conversas na hora do intervalo. Só se fala o caingangue.
O aprendizado no 1º e 2º anos do Ensino Fundamental é na língua natal. O português é ensinado a partir do 3º ano. "A gente tem buscado valorizar a identidade e e cultura indígenas dentro da sala de aula, por meio de atividades recreativas e pedagógicas e rodas de conversas com os próprios professores, com conteúdo voltado para a nossa cultura", afirma a coordenadora pedagógica da escola, Jaciele Nyg Kuita, de 25 anos, uma bonita caingangue nascida e criada no aldeamento de Mangueirinhas, próximo a Coronel Vivida (Sudoeste). Apesar dos problemas de infraestrutura da escola, que é mantida com recursos da Funai, os alunos têm acesso a computadores conectados à internet na biblioteca. A educadora cita como principais demandas aparelhos de TV e materiais didáticos com conteúdo mais específico sobre a cultura caingangue.
Cultura que Jaciele diz acreditar que está sendo revitalizada e não resgatada. Ela afirma ser importante os pequenos caingangues aprenderem os costumes dos "não índios" e "até a conviver conosco, mas sem deixar de ser quem nós somos". E os resultados, garante, estão sendo altamente positivos. "De uns dois anos para cá, temos obtido bons resultados aqui na escola. A autoestima das crianças tem aumentado bastante", revela. "É por isso que trabalhamos muito a valorização da nossa identidade. Quando a criança tem a autoestima elevada e valoriza a sua cultura, não vai ter dificuldade de se posicionar como não índio na cultura do não índio", argumenta.
A educadora fala com conhecimento de causa. Jaciele conta que só perseverou na vida acadêmica porque sempre teve muito orgulho de ser o que é. "Eu vim para a reserva há 14 anos, com a minha mãe e minha irmã. Até então não tinha a expectativa de cursar uma faculdade. Aqui no Paraná, foi a partir do início dos anos 2000 que os índios começaram a ter acesso à universidade. E quanto entrei, para cursar Psicologia, foi um impacto muito grande. Nós não somos cobrados a nos formar e ter um emprego, não faz parte da nossa cultura", relata. "Percebi na faculdade a individualidade dos não índios, a competição entre os alunos, as regras estabelecidas, tudo muito diferente. Sofri muito preconceito, principalmente por estar numa universidade pública, onde a maioria dos alunos é burguesa", afirma.
Jaciele chegou a cursar três anos de Psicologia em Maringá (Noroeste), mas optou por voltar à reserva e iniciou um curso a distância de Pedagogia na mesma universidade. Na TI Apucaraninha, também funciona uma escola de ensinos Médio e Fundamental.


