IDENTIDADE - Cacique cobra melhorias na reserva
Tamarana - É na casa localizada em frente ao campo de futebol que mora o cacique da reserva Apucaraninha, João Cândido, de 48 anos. Casado, pai de três filhos, ele veio da Terra Indígena Barão de Antonina, na região de Ortigueira (Campos Gerais), há 26 anos. A reserva de lá é a oitava mais populosa do Estado, com 600 índios, segundo o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O cacique confirma que os indígenas estão mais orgulhosos de suas origens, "principalmente os mais jovens". "Os jovens estão se reconhecendo mais como índios através da escola. Os alunos estão crescendo mais trabalhando em cima da cultura indígena", avalia.
A função do seu João não se limita a zelar pela boa convivência da reserva, formada pelas aldeias Sede, Serrinha e Barreiro - a quarta, Água Branca, surgiu em 2011 após desentendimentos com o cacique anterior e funciona de forma mais "independente". Lá, a maioria das crianças e jovens estuda em escolas de Tamarana, para onde a comunidade local se desloca também para cuidar da saúde. O cacique também ajuda a gestionar os projetos de agricultura e distribuir os recursos provenientes da indenização pela construção da Usina Hidrelétrica de Mauá, no Rio Tibagi. Apucaraninha é uma das oito Terras Indígenas do Estado impactadas com a obra, segundo pesquisa de campo realizada em 2012 pelo antropólogo Lucas Cimbaluk.
"Tudo o que a gente planta é para se manter. O que resta negociamos lá fora", afirma João Cândido. Milho e feijão são as principais culturas cultivadas na reserva. "Meu trabalho é fazer os projetos de plantação e correr atrás do que tem que ser feito para melhorar a comunidade", acrescenta. E, segundo ele, há muito a fazer. "Precisamos cobrar mais remédios no posto de saúde", aponta. A reportagem pergunta a ele quais doenças são mais comuns na comunidade. "O índio está bem familiarizado com a cultura branca, por qualquer coisinha está ficando doente. Na nossa cultura, muitos remédios vinham do mato. Já não tem mais tanto mato para tirar o remédio", afirma.
João Cândido também acha que as estradas de acesso à reserva, longas, sem asfalto e cheias de saliências, precisam ser melhoradas. "Precisam arrumar nossas estradas, nós ajudamos Tamarana a pagar para fazer as estradas com a participação do ICMS Ecológico", salienta ele, lembrando que é ano eleitoral e que índio "também vota".
VERBA DE INDENIZAÇÃO
O caingangue e advogado Ivan Bribis, morador da Reserva Sede, é quem gerencia os recursos vindos da verba de indenização da construção da Usina de Mauá. Ele diz que os avanços feitos no aldeamento são fruto da própria comunidade e também cobra maior participação do poder público. "O poder público está praticamente ausente aqui", critica.
Em relação à falta de medicamentos no posto de saúde, a assessoria de comunicação do Distrito Litoral Sul, órgão vinculado à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) responsável pelo gerenciamento das aldeias no Paraná, informou que há "uma luta constante" para ampliar a lista de remédios fornecidos às unidades. Atualmente, 129 medicamentos básicos constam na Relação Nacional de Medicamentos (Rename)fornecida pela Sesai aos postos das aldeias indígenas. Ainda de acordo com a assessoria, no final do ano passado o Ministério da Saúde chegou a divulgar uma portaria permitindo que os distritos da Sesai comprem medicamentos fora da lista da Rename e descontem os recursos dos municípios da área de abrangência das aldeias. No entanto, a portaria ainda não oi regulamentada. (D.P.)





