HOMENAGEM - Um grande coração de pai
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de agosto de 2013
Micaela Orikasa<br> Reportagem Local 
No Dia dos Pais, a melhor homenagem é dar o exemplo de quem se dedicou a este papel a vida inteira. E não é preciso ir longe para encontrar uma boa história. Em Cambé, um senhor de óculos fundos e semblante tranquilo esconde, por trás da aparência frágil, um coração jovem, movido verdadeiramente pelo amor.
Ele aguarda a reportagem da FOLHA na porta de casa, sentado em uma cadeira de rodas. Recebe a equipe como quem espera a chegada de um filho e em poucas palavras deixa transparecer o bom humor. Prestes a completar um século de vida - no dia 6 de outubro -, seo Hugo Gonçalves, conhecido como "Paizinho", diz que "não é qualquer um que vive 100 anos". Realmente não é.
A boa saúde pode ser fruto de uma vida saudável ou até mesmo dos traços genéticos a origem é portuguesa -, mas é bem possível que a longevidade seja resultado do trabalho pelo qual até hoje faz questão de se dedicar. "É o meu mundo. No meio das crianças eu sou feliz. Confesso que nunca tinha planejado trabalhar em prol delas, mas graças a Deus tudo aconteceu de forma natural e, desde então, meus sonhos têm se realizado", diz ele, que desde 1953 está à frente do Lar Infantil Marília Barbosa, no centro de Cambé. Sua residência fica na frente da sede da entidade.
Ele conta que um amigo de sua cidade natal, Matão (SP), conheceu Marília Barbosa, uma mulher que cuidava de um grupo de crianças no Rio de Janeiro. "Ele (o amigo) se mudou para Cambé e me chamou para trabalhar. Quando cheguei, ele já havia fundado este lar para atender meninas que não tinham onde morar e eu fazia serviços gerais, como o de jardineiro. Meses depois ele faleceu e sem querer eu fiquei responsável por tudo", relembra.
Na mão esquerda, seo Hugo carrega duas alianças. Uma do casamento e a segunda das bodas de ouro. Sua esposa, Dulce Ângela, faleceu há 10 anos, mas ele ainda faz questão de se declarar. "É a mulher da minha vida". Desse amor, nasceram dois filhos, mas o desejo de Dulce sempre foi ter uma filha. "Acabamos que criamos centenas de meninas e hoje considero que tenho 125 filhas", afirma.
Quando assumiu a entidade, seo Hugo tinha oito "filhas", mas o trabalho ganhou tamanha dimensão que esse número aumentou para 60. Todas as meninas eram encaminhadas pelo juiz por viverem em situação de vulnerabilidade social. A partir daí, o lar passava a ser a nova moradia delas. Ao longo dos anos, mais de 1.200 crianças foram atendidas. Seo Hugo faz questão de contar que sua esposa as levava e buscava todos os dias na escola. "Ela amava essas crianças tanto quanto eu", ressalta.
Lição de vida
"Hoje, tudo o que sou, devo a ele. Ele é meu pai, é minha referência para tudo", declara Evelin Cristiane Oliveira, de 23 anos. Ela chegou ao Lar aos 4 anos, pois sua mãe não tinha condições de criá-la. Viveu na casa até os 21. "Eu mantinha contato com minha mãe, mas morava aqui. Era tudo diferente. As salas de aula eram os quartos", lembra ela, que hoje é professora no local, que se transformou em um Centro de Educação Infantil (CEI) filantrópico desde 2003. "Se não fosse esse lugar, muitas meninas teriam ficado nas ruas", completa.
Atualmente, a entidade atende crianças de 6 meses a 6 anos, em período integral. São servidas quatro refeições e um convênio com a prefeitura possibilita o pagamento de salário dos professores. Os demais custos são arcados com doações de empresas e pessoas físicas, promoções e os lucros de uma pequena tipografia, propriedade da instituição, instalada no mesmo terreno. "Meu irmão administra a tipografia e eu, o CEI", conta Cairbar, de 75 anos, filho mais velho de seo Hugo. "Nós procuramos seguir o caminho dele. Para mim, é um exemplo de honestidade, trabalho, educação e respeito ao próximo."
Hoje, mesmo com a mobilidade comprometida, seo Hugo continua convivendo com as crianças, que agora o chamam de "Vôzinho". Ele diz que sem as crianças o mundo seria cinza, sombrio e que se pudesse fazer um único pedido, "pediria um parquinho novo para elas". Ao ser questionado se aos 100 anos tem algum sonho a ser realizado, não pensa duas vezes em responder: "a construção de outro lar, funcionando como uma escola; a criança é o nosso futuro e nós temos que cuidar delas".
E assim, como no ditado popular, seo Hugo é um exemplo de que em "coração de pai sempre cabe mais um". Na hora da despedida, ele carinhosamente agradece a visita e diz que sua casa estará aberta, como sempre foi. Seo Gonçalves também administrou por muito tempo o Centro Espírita Allan Kardec, localizado ao lado do CEI.
Serviço: Doações de alimentos e produtos de higiene podem ser feitas pelo telefone (43) 3254-3261. O Lar infantil Marília Barbosa fica na Rua Pará, 280, no centro de Cambé.


