Hoje entendem minha escolha
Atualmente vendendo artesanato no Calçadão de Londrina, o sul-mato-grossense Cris, de 40 anos, é um autêntico ''maluco de estrada''. Criado em Santa Catarina, ele ganhou o mundo aos 18 anos, com uma namorada, e nunca mais voltou ao que convenciona-se chamar de casa. ''Em minha primeira viagem, fiquei sete meses morando na aldeia hippie de Arembepe, na Bahia. Gostei da cultura, principalmente por causa do espírito de comunidade'', recorda ele, que na época perdeu o contato com a família. ''Eles achavam que eu era vagabundo, mendigo. Hoje entendem minha escolha.''
Logo em seguida, passou dez anos viajando pela Amazônia, numa experiência impactante de conhecer populações isoladas que sobrevivem à margem da ''civilização''. Foi na Amazônia que se casou e teve os filhos Papoula Serena, 16, Caluache Silvestre, 13, e Lotus Luz, 9, que hoje moram em Rondônia. ''Eles me pediram um notebook de Natal'', relata, avisando que vai adquirir o 2computador a prestações. Sem emprego formal e sem documentos, ele conta com o apoio de um amigo londrinense que, no maior espírito de irmandade, assumirá a dívida. ''Estou na cidade há um ano, fiz muitas amizades e encontrei um verdadeiro irmão. Mas meu pé de 'maluco de estrada' está coçando, devo ir embora depois do Natal'', planeja.
Satisfeito com a escolha que fez na vida, ele garante que ser ''maluco de estrada'' é, acima de tudo, uma questão de fé. ''Tenho fé que vou chegar tranquilo, sentar na sombra de uma árvore, expor minhas coisas e conversar com as pessoas.''
Punk
Cobra, de 30 anos, natural de Ponta Grossa, também adotou o nomadismo como estilo de vida. Poeta, músico, artesão e tatuador, ele se identifica com a filosofia anarquista dos punks para embasar sua produção, ''mangueada'' nas ''pedras de maluco'' das cidades por onde passa.
Há 15 anos na rotina nômade, ele conta que escolheu viver na estrada porque ''via coisas erradas na família e não queria ser conivente''. Movido pela revolta, ele não se identifica com os hippies, mas se considera um ''maluco de estrada'' por não ter parada. ''Nunca fico muito tempo no mesmo lugar.''(C.A)





