Hoje a doença não tem cara
Para o presidente do Núcleo Londrinense de Redução de Danos, Edson Facundo, ainda há muitas brechas nas políticas públicas voltadas à aids no Brasil. Ele defende, por exemplo, que mais investimentos sejam destinados à prevenção. ''Hoje a aids não tem cara. Pessoas de todas as idades têm sido contaminadas pelo HIV, mas não se fala no assunto como se deveria, ainda há muito mito. Os adolescentes, por exemplo, não acreditam que podem se contaminar ao manter relações sem preservativo'', alerta Facundo.
O mesmo problema, segundo ele, acontece com homens e mulheres idosos. ''Falta um melhor gerenciamento dos recursos do SUS, mais participação social no que diz respeito ao assunto e uma legislação que estabeleça uma melhor distribuição de recursos para investir em prevenção, e não apenas em tratamentos de alta complexidade.'' Facundo, que convive com o vírus HIV há mais de 20 anos, conheceu bem as dificuldades vividas no início da pandemia da aids, quando o coquetel de medicamentos antirretrovirais não eram distribuídos gratuitamente e provocavam fortes efeitos colaterais.
Embora a situação esteja bem diferente atualmente, ele ressalta que conviver com o vírus ainda tem suas complicações. ''Hoje as reações são mais adversas, como o acúmulo de gordura em partes específicas do corpo, que é a chamada lipodistrofia.'' Para Facundo, a aids continua sendo um desafio.
A transex (como preferem ser chamadas as travestis) Cristiane Lemos, 47 anos, foi contaminada com o HIV entre 1986 e 1987, mas foi diagnosticada e começou o tratamento em 1997. Ela chegou a tomar 60 comprimidos por dia, hoje ingere apenas cinco. ''As coisas estão mais fáceis agora, temos uma boa assistência. Tudo isto é uma bênção. Mas, ao mesmo tempo, banalizou a aids. As pessoas não pensam mais na doença como nós vimos, lá atrás. Foi preciso percorrer um longo caminho para chegar a este ponto.''
E mesmo assim, a exemplo de Facundo, ela lembra que tomar os antirretrovirais não é tão fácil como se imagina. ''São remédios que mexem muito com a gente, com nossa cabeça, nosso corpo. Para conseguirmos ter qualidade de vida, temos que aderir muito seriamente ao tratamento e respeitar os horários minuciosamente. Os efeitos colaterais dependem de cada organismo.'' Cristiane, que tenta conscientizar outras travestis sobre a importância de usar preservativo, constata, com preocupação, que grande parcela da população hoje não dá a devida importância à proteção. ''Os idosos, por exemplo, passaram a usar Viagra, mas não se preocupam em usar camisinha'', constata. (S.L.)





