O chão sumiu quando a diarista Olga (nome fictício), de 55 anos, descobriu que era portadora do vírus HIV, em 2009. Foi quando precisou fazer um exame de sangue para detectar as causas de uns caroços que apareceram na região da nuca. Era neurotoxoplasmose.
"Fiquei sem saber para onde ir, no fundo do poço. Pensei em nem procurar tratamento: se morrer, morreu", recorda. Então separada do marido, ela não imaginava de onde poderia ter contraído o vírus. "Não vou dizer que não tive relações com outros homens depois que me separei porque tive sim. Mas sempre me cuidei, fiz questão de que os meus parceiros usassem o preservativo", conta. Desconfia de que possa ter se contaminado durante uma cirurgia de laqueadura que havia realizado num hospital em Osasco, na Grande São Paulo.
O fato é que desde que se descobriu soropositiva, Olga perdeu o brilho nos olhos. "Eu me tornei uma pessoa fria. Não sinto prazer nas coisas", confessa. O que não significa que tenha desistido de lutar. A diarista faz o tratamento com antirretrovirais sob a supervisão da equipe multidisciplinar do Centro de Referência em Aids, da Secretaria Municipal de Saúde, e garante estar levando uma vida normal. Está dentro do peso e sempre que pode dá suas caminhadas pelo bairro onde mora com o marido, com quem voltou a viver, na zona leste de Londrina.
Olga está em um dos dois grupos etários considerados os de maior risco de contaminação pelo HIV por profissionais de saúde epidemiológica e organizações não governamentais que atuam no enfrentamento da aids: os jovens de 15 a 25 anos e os adultos acima de 50. O Ministério da Saúde considera que a taxa de detecção de aids na população brasileira de uma forma geral tem permanecido estabilizada nos últimos anos, com cerca de 20 casos a cada 100 mil habitantes. Isso representa aproximadamente 39 mil casos novos da doença ao ano.
O Paraná segue essa tendência. Somadas todas as faixas etárias, os casos de aids aumentaram apenas 0,13% em seis anos (1.450 para 1.452) e regrediram 5,9% de 2012 para 2013 (1.544 para 1.452). No entanto, em alguns grupos prioritários a escalada da doença é uma realidade.
Segundo dados da Secretaria de Saúde (Sesa), no intervalo de seis anos (2007 a 2013) os casos confirmados da doença cresceram 60% entre jovens de 15 a 19 anos (20 para 32 casos) e 62,5% em idosos de 70 a 79 anos (de oito para 13). Gerações distintas com o comportamento sexual de risco semelhante. "Hoje a consciência social é a do consumo e imediatismo das coisas. Os jovens vivem os momentos com muita intensidade, das relações descartáveis e têm aquela noção de que tudo tem solução, inclusive a aids. Por não terem vivido o auge da epidemia e suas consequências, nos anos 80 e início dos 90, há essa banalização de que ter o HIV hoje não é a pior coisa, eles vivem num mundo em que outras coisas podem ser piores, como a violência e as drogas", afirma a assistente social Elisete Maria Ribeiro, coordenadora estadual de controle de Aids e hepatites virais da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa).
Já os idosos no grupo de risco, salienta ela, estão redescobrindo a sexualidade. "É a mulher que se separa e resolve viver aquela adolescência que não teve, o homem que usa o Viagra e vai procurar relações com mulheres mais novas. Assim como os adolescentes, passam a viver mudanças nos padrões sexuais, com relacionamentos mais abertos e sem o uso do preservativo", esclarece Elisete, que também é professora de Saúde da Família da Faculdade Evangélica do Paraná.
A coordenadora observa que os testes rápidos para a detecção do HIV realizados pela Sesa no litoral paranaense no último verão acusaram a confirmação de muitos casos "em jovens de ambos os sexos e na população da melhor idade".

Mais de 10 mil
Em Londrina, de janeiro a julho deste ano, 1.301 pessoas de todas as idades se submeteram ao teste rápido nas unidades de saúde, segundo o Centro de Referência em Aids da Secretaria Municipal de Saúde. Dessas, 43 descobriram ser portadoras do vírus HIV. É um índice baixo, apenas 3,3%. Mas que parece ser ilusório. "Não necessariamente essas 1.301 são as que tiveram mais comportamento de risco na população de Londrina", adverte a gerente do Centro, enfermeira Regina Cortez.
De acordo com levantamento do programa, de 1985 até este ano o número de doentes com aids em Londrina chega a 2.135 pessoas. Mas o universo de londrinenses contaminados com o HIV é bem maior. "Segundo o Ministério da Saúde, para cada caso de aids notificado ou pessoas que já são doentes, nós temos cinco pessoas que são portadoras do vírus, já o transmitem, mas desconhecem essa condição sorológica. Se eu multiplicar os 2.134 doentes desde 1985 por cinco, vamos ter 10.670 pessoas que estão infectadas com HIV e não sabem", projeta Regina.

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