HISTÓRIA VIVA - Recanto alemão no Paraná
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domingo, 15 de janeiro de 2012
Mariana Fabre <br>Reportagem Local
Há 60 anos Theresia Jungert desembarcou de uma viagem de mais de 20 dias que exigiu navio, trem e caminhão até chegar à Entre Rios, distrito a 17 km de Guarapuava, no Centro-Sul do Estado. ''No dia 6 de outubro de 1951 chegamos a Góis Artigas (não havia estação de trem em Guarapuava). Era um dia muito frio e, em volta, só montanhas e mato, e pensamos: 'o que que vai esperar por nós aqui'.'', relembra uma das pioneiras da imigração de Suábios do Danúbio ao Brasil.
A etnia suábia habitava o que chamam de Antiga Pátria, onde hoje se localizam Croácia, Sérvia, Romênia e Hungria. Durante a 2 Guerra Mundial, foram obrigados a se refugiar na Áustria. O grande número de imigrantes e apátridas incentivos a emigração. Muitos partiram para os Estados Unidos, Canadá, Austrália, Alemanha e um grupo acabou vindo para a América do Sul.
''O Brasil foi um dos poucos países que aceitou a vinda de famílias completas, com idosos e crianças. Os outros países queriam apenas pessoas em idade produtiva'', explica Viviane Schussler, coordenadora da Fundação Cultural Suábio-Brasileira. As famílias se inscreveram para a migração cientes de que seria dentro de um sistema cooperativista. Ao todo, 500 famílias suábias chegaram à Entre Rios. ''Foi a única comunidade que veio organizada, que sabia para onde ia e como iria se estabelecer'', assinala.
Aos 75 anos, Theresia mantém a memória intacta. No ínicio, a família, composta ainda pelos pais, irmão, cunhada e seus três filhos com idades entre 9 meses e 14 anos, viveu em abrigos comunitários na colônia em Entre Rios. Depois, se mudou para uma casa na colônia Jordãozinho, uma das cinco comunidades em que se dividiu o grupo de imigrantes. Em 1952, a família conseguiu financiar cerca de 40 hectares.
Theresia trabalhou em casas de família em Curitiba e São Paulo por quase dois anos para ajudar a família. Depois, retornou para a lida na propriedade. ''Nós trabalhamos bastante. Reviramos a terra, fizemos horta, plantamos milho e batata-doce. Depois, foi semeado trigo, mas com tanta chuva, perdemos tudo. A terra e o clima eram diferentes, mas fomos nos adaptando'', relata. O desconhecimento da língua dificultava as relações comerciais e era preciso improvisar com mímicas e demonstrações. ''O galo era o qui-qui-ri-qui e a vaca a gente apontava. Aprendemos português com nossos trabalhadores'', conta.
Theresia ficou viúva jovem, ainda em 1958. A partir de então, ela e os pais compraram o lote onde vive até hoje, dividindo o terreno com a casa do filho. A pioneira chegou ao Brasil pouco antes de completar 15 anos, mas já havia percorrido um longo trajeto. Nascida na Croácia, vivenciou a guerra até os oito anos, quando a família viajou por um mês até a Áustria. Permaneceu refugiada por mais sete anos.
Em 1974, a pioneira fez a primeira viagem de volta à Europa, mas revela que nunca intencionou voltar para a Antiga Pátria. ''O Brasil significa para nós a nova pátria e nós gostamos de estar aqui. Essa é a nossa pátria e aqui queremos ficar até o fim da vida'', enfatiza.
Em agosto de 2009 fez a última viagem para a Croácia e encontrou o local onde morava. ''Fui no pátio da casa onde nasci, reconheci o portão velho de ferro que está lá há mais de 70 anos e falei para o motorista: pare, pare aqui'', conta. ''Nós falamos que moramos no Brasil e que não nos falta nada, temos de comer, temos a casa, temos terra e dinheiro para o que a gente precisa. Eles até choraram com a gente''. Sentada em frente à outra casa, uma vizinha contou que se lembrava da família de Theresia. ''Até de mim ela se lembrou e disse que sabe o nome dos meus padrinhos. Foi um dia bem emocionante.''
Hoje, com a família estabelecida na colônia, Theresia ressalta a importância de preservar a tradição e revela que gosta de escrever suas memórias. Entre as tradições, a senhora destaca a igreja e as demais festas do ano, como Natal, Ano Novo, 1º de Maio, Páscoa e Nossa Senhora.
Confira mais fotos da colônia suábia em Guarapuava: