História negligenciada e desconhecida
Apesar da presença dos ciganos ser datada do início da colonização do Brasil, sua história é vista com reprovação, desconfiança e desprezo, tanto pela população quanto pelo poder público. Cigana e pesquisadora do Centro de Estudos e Resgaste da Cultura Cigana (Cerci), Márcia Guelpa, mais conhecida como Yáskara, critica: ''o governo brasileiro não sabe quem somos e nem onde estamos''. Este desconhecimento, entretanto, não é o principal problema que enfrentam. ''O nosso maior obstáculo chama-se acessibilidade: a documentos, saúde pública, educação, locais públicos para permanência'', resume a pesquisadora.
À frente da Comissão Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), por cinco anos, Yáskara diz que, por mais que tenha levado as demandas ao governo, nenhuma política pública foi implementada. ''Acabei desistindo de participar'', admite. A única medida recente, conforme ela, foi a elaboração de uma cartilha voltada aos ciganos, que traz informações sobre a cultura, direitos e dicas para que resgatem sua ''cidadania''. ''Para quê uma cartilha escrita quando cerca de 90% deles são analfabetos? É lamentável'', enfatiza.
Hoje, o trabalho do Centro visa pesquisar os grupos nômades, pois há muita coisa perdida. ''Já tivemos vários inimigos durante a história de nossa trajetória. Hoje, o inimigo maior chama-se 'prefeito', com raríssimas exceções. É muito mais fácil expulsá-los das cidades do que enfrentar o problema de frente. Um terreno com pequena infraestrutura não seria nenhum desdouro.'' Para piorar a situação, de acordo com Yáskara, além do preconceito, os ciganos têm enfrentado casos de violência extrema pelo País, incluindo o assassinato de rapazes na cidade de Florência (CE).
Diversidade
Perseguições, preconceito e desconhecimento cultural sempre fizeram parte da vida desse grupo. No artigo ''Anticiganismo e ciganos no Brasil?'', o antropólogo e pesquisador da história cigana, Frans Moonen, da Universidade Federal da Paraíba (UFPA), diferencia a diversidade entre clãs. ''Cigano é um termo genérico inventado na Europa do Século XV. Mas, hoje, os ciganópolos costumam distinguir em três grandes grupos: os rom, que falam romani, predominantes dos países balcânicos. Os sinti, que falam o sintó, mais encontrados na Alemanha, Itália e França. E os Calon, os ciganos ibéricos, que vivem principalmente em Portugal e Espanha e migraram para a América do Sul.''
Muito incipiente, o movimento cigano ensaia os primeiros passos rumo à representatividade. ''O governo só nos ouve se tivermos um estatuto, um CNPJ'', comenta Cláudio Iovanovitch, neto de família cigana residente em Curitiba, que criou a Associação de Preservação da Cultura Cigana do Paraná (Apreci), em 1996. Segundo o ativista, as políticas públicas são voltadas apenas àqueles que possuem residência fixa. ''O Governo esquece que há uma nação no Brasil privada dos programas sociais por não possuir documentos, de atendimento à saúde e educação. Os ciganos no Brasil se sentem intrusos na própria pátria.'' Em 2006, o Governo Federal instituiu o dia 24 de maio como Dia Nacional do Cigano. (M.T.)





