Cafeara - Uma história que rendeu um livro. Não propriamente sobre a trajetória de vida do imigrante japonês Toshio Saneshigue, mas de todos aqueles que desbravaram o Brasil em busca de trabalho e riqueza.
Desembarcar no porto de Santos, Interior de São Paulo, trabalhar na terra vermelha debaixo do sol escaldante e ainda entender o linguajar brasileiro era um grande desafio para milhares de japoneses. Mas não o maior, pois uma das grandes batalhas que eles sentiram na pele foi a dolorosa guerra de japoneses contra japoneses.
Para entender essa história, seo Toshio Saneshigue, que completou 100 anos no dia 27 de março, conta o que viu e passou nos tempos em que a vida no Brasil só poderia ser suportada por verdadeiros guerreiros japoneses.
Com um século de vida, Saneshigue talvez seja um dos únicos sobreviventes para contar essa história. Em sua residência em Cafeara (Norte), ele recebe a equipe da FOLHA com uma vitalidade surpreendente. Caminha sem a ajuda de bengala, confessa que nunca teve hábitos saudáveis a não ser a prática de judô e corrida e ainda revela uma memória espantosa.
Acomodado no sofá de casa, Saneshigue volta ao passado e lembra da longa viagem que fez rumo ao Brasil em 1928, quando acabara de completar 16 anos. A bordo de um navio cargueiro e na companhia da irmã e do cunhado, passou pela China, Índia e África durante 62 dias, até desembarcar em território brasileiro.
Naquela época, a condição para os imigrantes era viajar na companhia de mais dois familiares e trabalhar nas fazendas cafeeiras durante um ano para pagar as despesas de viagem e hospedagem. ''As condições no navio eram boas, mas eram muitos trabalhadores. Viemos em quase 900'', relembra.
A cor da terra e a língua portuguesa foram dois grandes impactos para Saneshigue, que só não estranhou o cardápio brasileiro porque nos primeiros dias comprou a própria comida em uma cidade próxima a Ribeirão Preto, onde trabalhou durante dois anos.
Samba
Já em São Paulo, na Capital, foi empregado em uma pastelaria, onde preparava diariamente cerca de 50 quilos de farinha para fazer a massa. O capricho na arte de fazer pastéis animou um negociador cheio de riqueza que, ao provar a iguaria, lhe fez uma oferta para trabalhar na primeira pastelaria de Curitiba, em 1931.
Quando a promessa de fazer dinheiro no Brasil parecia estar se cumprindo, o imigrante teve que recomeçar. ''Eu estava com um bom dinheirinho e como era Carnaval fui para rua ver o tal do samba. Bebi bastante e, quando voltei para a pensão, já não tinha mais nada. Fui roubado'', conta.
Aventureiro, como ele mesmo descreve, largou a vida na Capital paranaense e seguiu para Cotia (SP) plantar tomates. Insatisfeito, foi parar em Agudos, em uma colônia de japoneses para se dedicar ao plantio de algodão. ''Foi onde conheci minha esposa, Susuko Onu, e me casei, aos 23 anos.''
Pai de três filhos, Kioshi, de 76 anos, Hiros, 75, e Tioko, 73, Saneshigue viu a esposa falecer ao contrair malária. ''Ela estava grávida do meu quarto filho, que acabou morrendo também. Daí por diante, fui o único responsável dos meus filhos, que na época tinham 5, 4 e 2 anos. Dava banho e comida. Tudo sozinho'', comenta.
A família morava em uma casa de sapê, que incendiou enquanto Saneshigue, um dos únicos da colônia que falava português, negociava a venda de algodão. ''Meu irmão mais velho percebeu o fogo e correu para nos salvar. Meu pai chegou correndo, mas só conseguiu salvar um baú de roupas. Ele saiu com queimaduras de segundo grau'', conta o filho Hiros.
Desamparado, Saneshigue resolve se aventurar mais uma vez rumo à cidade de Cafelândia (PR), onde arrumou um emprego e se tornou sócio de uma sapataria. Foi então que a história do imigrante japonês ilustra tantas outras que são contadas no livro ''Corações Sujos'', de Fernando Morais.
A guerra
Nas páginas, o autor descreve a guerra dos japoneses contra japoneses, que iniciou a partir da notícia que soou nos alto-falantes das rádios do Brasil, anunciando que o Japão havia se rendido às forças aliadas na Segunda Guerra Mundial, em 1945.
Tudo começou quando anos antes os japoneses se dividiram em associações voltadas para o culto de valores patrióticos em todo o país. Elas funcionavam clandestinamente, já que oficialmente eram extintas pelas leis de guerra. Na década de 40, os líderes japoneses fundaram a Shindo Renmei, a Liga do Caminho dos Súditos, que tinha a finalidade de disseminar a ideia de que o Japão não havia perdido a guerra.
No livro, o autor cita que em pouco tempo a Shindo Renmei tinha cerca de 100 mil sócios-contribuintes e aproximadamente de 60 mil simpatizantes, espalhados em 64 municípios paulistas.
''Eu tinha escutado na rádio que o Japão tinha perdido a guerra e acreditei. Mas meu sócio, que era um dos líderes da Shindo Renmei, ordenou que eu fosse na delegacia e assinasse um documento. Eu nem sabia do que se tratava, mas na verdade, eu estava confirmando minha associação ao grupo'', conta.
Dentro da Shindo, surgiu um grupo de extermínio chamado de ''Tokkotai'', que matava os japoneses que aceitavam a condição de que o Japão havia perdido a guerra. Eles eram chamados de derrotistas e, portanto, eram tidos como ''kokuzokus'' (traidores da pátria).
''Eles ficavam furiosos quando alguém falava que o Japão tinha perdido. Para eles, os brasileiros podiam falar isso, mas japonês não'', explica Saneshigue, que chegou a participar das reuniões da Shindo. ''Nesses encontros, o grupo apontava quem estava falando mal e merecia ser morto. Era assim que saíam os nomes daqueles que seriam ameaçados'', lembra.
As ameaças de morte passaram a aterrorizar a colônia. Os derrotistas eram informados da condenação através de bilhetinhos ou recados escritos em madeira e pregados nas portas das casas. ''Antes de matar, eles avisavam três vezes'', conta.
Saneshigue, por ter assinado o documento, passou dois anos na prisão, em Cafelândia, na companhia de outros 70 japoneses entre 17 e 45 anos. Apesar de presos, eles podiam sair durante o dia para prestar serviços, como construção de estradas e pontes. ''O delegado falava que como nosso governo não dava nada para gente comer, nós tínhamos a obrigação de trabalhar'', lembra.
Durante esse tempo, os filhos ficaram sob o cuidado de parentes e o mais velho ficou na casa de um juiz, que era amigo de Saneshigue. ''Ele sabia que eu não era um criminoso'', completa.
Agir com boa-fé
Ao sair da prisão, juntou os filhos e se mudou para São Paulo, onde passou a trabalhar em uma tinturaria. Em janeiro de 1951, veio para o Paraná em uma viagem de trem. ''Fui roubado dentro do vagão. Todo meu dinheiro estava no bolso e eu só percebi quando parei na estação em Londrina, para fazer baldeação. Dava para comprar um sítio de cinco alqueires'', relembra.
Um japonês que ficou sabendo do episódio emprestou dinheiro para a família, que acabou comprando um pedaço de terra em Guaraci. Durante todos esses anos, viveram do cultivo de algodão. Só se mudaram para Cafeara anos depois.
Ao relembrar o passado, Saneshigue se emociona e confessa ter saudades da juventude, mas logo desabafa: ''Acho que já sofri demais. Hoje, só quero que minha família seja feliz e tenha saúde para trabalhar. Meus filhos sofreram muito sem a mãe'', diz.
Na presença de oito netos, 11 bisnetos e uma tataraneta que está para nascer, Saneshigue comemorou 100 anos em uma festa preparada ontem, pela família. Em um século de vida, ele é um exemplo da luta de milhares de japoneses que deixaram a terra natal em busca de um sonho no Brasil.
O caminho foi longo, a batalha foi difícil, mas hoje eles são a prova de que o importante é ''sempre agir com boa-fé''. Frase, que por sinal, define o dia 27 no calendário japonês, que decora a sala de Saneshigue. Uma data em que há 100 anos nascia um homem de ferro. Um japonês brasileiro.

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