História - Uma semana de 50 anos
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sábado, 22 de março de 2014
Fábio Galão<br> Reportagem Local 
Na próxima semana, completam-se 50 anos do fato político mais importante da história recente do Brasil: o golpe de 31 de março de 1964. A ação militar que depôs o então presidente João Goulart ainda é capaz de despertar polêmica e ressentimentos: para ontem, estava marcada uma reedição da histórica Marcha da Família com Deus, desta vez contra o governo do PT, em São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades; grupos de esquerda planejavam outra manifestação como resposta.
Na Londrina de 1964, ainda no auge do café e com cerca de 170 mil habitantes, a movimentação gerada pelo golpe não teve o mesmo impacto que o verificado em grandes centros. Mas os episódios dos dias anteriores e seguintes ao 31 de março mostram que, assim como em boa parte do Brasil, havia por aqui uma disputa de forças em que era nítida a vantagem dos favoráveis à queda de Goulart.
Segundo o jornalista Délio César, que na época tinha 25 anos, naquele momento as elites política e econômica e a Igreja Católica da cidade eram contrárias a Jango, enquanto militantes comunistas, estudantes universitários de esquerda e um sindicalismo incipiente apoiavam o presidente. "Londrina era uma cidade de pequena para média. Não havia uma vida política e ideológica forte", descreve.
"Não havia uma estrutura comunista forte na cidade. Havia alguns comunistas velhos, professores, médicos, um pessoal que vivia em paz, não era ameaça para ninguém. Mas, qualquer coisinha, iam em cana", lembra o hoje septuagenário, eleito vereador pouco antes do Ato Institucional número 5 escurecer de vez o cenário político, em 1968, e vice-prefeito na gestão Wilson Moreira, nos anos 1980, período que marcou a transição para retomada democrática.
Délio força a memória para interpretar hoje aquela semana inesquecível. "O sindicalismo em geral era fraco, mas o sindicalismo rural estava avançando bastante. Antes, o proprietário rural tinha o seu empregado, e era tudo 'conversa de bigode'. Era outra conjuntura de trabalho. O empregado prestava serviços para o proprietário e recebia um pedaço de terra para produzir. Não havia vínculo trabalhista. Com a entrada da legislação do trabalho e a sindicalização, que buscava o vínculo, com carteira e todos os direitos, isso gerou um conflito forte", explica Délio.
"Havia dois advogados em Londrina, Manoel Silva e Flávio Ribeiro, que trabalhavam para sindicalizar os trabalhadores rurais. O Manoel Silva saía de Londrina, percorria cidades da região e juntava o pessoal para criar sindicatos. O Flávio Ribeiro tinha escritório no Edifício Autolon e atendia os trabalhadores rurais", conta o jornalista.
Enquanto crescia no noticiário nacional a tensão que resultaria no golpe, em Londrina estava sendo organizada uma versão local da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, manifestação contrária ao governo Jango nos moldes da que havia sido realizada em São Paulo dias antes. Em Londrina, o evento estava marcado para a tarde do dia 2 de abril. Oficialmente, a marcha estava sendo organizada por um grupo de senhoras "para protestar contra qualquer plano reformista que signifique alteração do texto constitucional".
Na segunda-feira, 30 de março, véspera do golpe, foram anunciadas algumas novidades importantes sobre a marcha. O prefeito José Hosken de Novaes, da UDN, partido de oposição a Jango, decretou ponto facultativo para que funcionários municipais pudessem participar da manifestação.
Além disso, representantes do poder público e de entidades da sociedade civil (Aeroclube, Rotary, Lions e associações rurais) se reuniram no Centro do Comércio do Café e formaram uma comissão que percorreria estabelecimentos comerciais para solicitar que fechassem as portas, para que os funcionários do setor também pudessem participar da marcha. Empresas de transporte urbano e interurbano se dispuseram a transportar gratuitamente quem desejasse aderir à manifestação.
O dia seguinte
Com a deflagração do golpe, Londrina, como todo o Brasil, acordou sob clima de tensão na quarta-feira, 1° de abril. Várias ações de segurança foram adotadas na cidade, coordenadas pelo delegado-chefe da 12ª Subdivisão Especial de Polícia, Ladislau Bukowski Filho.
O policiamento foi reforçado em prédios públicos, bancos, nas estações ferroviária e rodoviária, no aeroporto, em postos de combustíveis e outros pontos da cidade, inclusive com o deslocamento para Londrina de policiais militares de outros municípios. As operações no aeroporto foram canceladas durante todo o dia, e 25 PMs mantiveram guarda no local.
A Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi cancelada. O advogado Manoel Silva foi detido e permaneceu incomunicável durante duas horas. Só foi liberado após receber advertência de Bukowski, para que não fosse realizado um comício que grupos esquerdistas planejavam para a noite. Délio César aponta que outras prisões ocorreram na semana do golpe em Londrina, mas sem maiores consequências. "O pior viria depois", afirma.
Na sessão da Câmara Municipal, o presidente da Casa, Galdino Moreira Filho, pediu para que não fossem feitos "pronunciamentos políticos".
Como havia temor de racionamento, postos de combustíveis foram instruídos a restringir a mil cruzeiros as vendas por cada cliente. Bares receberam instruções para fechar às 22 horas. A polícia recomendou a diretores de estações de rádio locais para que evitassem a divulgação de notícias "alarmantes" e privilegiassem informações de grupos de comunicação contrários a João Goulart. O Instituto Brasileiro do Café e proprietários de estabelecimentos comerciais chegaram a colocar veículos à disposição para transportar policiais militares. Começava uma noite de mais de 20 anos.
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