O outono de 1984 encontrou uma Londrina dividida. Nos dias anteriores ao 2 de abril que ficou marcado na história política da cidade e do País, parte da população se mobilizava e torcia pela realização de um grande comício pelo retorno das eleições diretas para presidente da República - como vinham fazendo, desde o início do ano, as capitais e os centros urbanos mais representativos. Outra parte, mais cética, duvidava que a Londrina simpática ao golpe militar, 20 anos antes, conseguisse se mobilizar para clamar pela democracia. Pois os mais otimistas mostraram que estavam certos.
No dia e hora marcados, lá estava um público estimado em 50 mil pessoas, lotando o Calçadão da Avenida Paraná, a partir da Rua Prefeito Hugo Cabral. O palanque recebeu figuras ilustres como o presidente nacional do PMDB, Ulisses Guimarães; o presidente nacional do PT, Luiz Inácio Lula da Silva; o governador José Richa; o senador Álvaro Dias; deputados estaduais e federais; o locutor esportivo Osmar Santos e os cantores Belchior e Wando, entre outros nomes de peso. O tempo, que segundo texto assinado pelo jornalista Edson Vicente na FOLHA, havia estado "carrancudo" ao longo de todo o dia, resolveu se abrir e brindou os presentes com um pôr-do-sol amarelado, como numa elegia à cor símbolo do movimento.
Por volta das 18h30, já dava para sentir o que viria nas horas seguintes, e não era para menos: a cidade havia se mobilizado como nunca para realizar um evento memorável. A Transportes Coletivos Grande Londrina (TCGL) distribuiu cerca de 15 mil passagens gratuitas e colocou 150 ônibus extras para circular em conjuntos habitacionais e bairros, facilitando o acesso da população; escolas públicas suspenderam as aulas e as particulares não registraram falta para os alunos que se ausentaram naquela noite; lideranças políticas organizaram caravanas de moradores de municípios da região; policiais militares disciplinaram o trânsito desde o início da tarde na área central e, a partir das 18 horas, as ruas próximas do comício foram interditadas.
"Às 19 horas, pouco mais, os primeiros 100 metros da Avenida Paraná, a partir do caminhão que serviu de palanque, já estavam totalmente tomados pelo povo. Logo depois, o Calçadão todo parecia um formigueiro, com o público balançando o corpo ao som do sambão ou do ritmo nordestino de Alceu Valença", escreveu Edson Vicente, na edição do dia 3 de abril da FOLHA. O jornalista definiu assim o comício: "Mistura. Só assim para definir o público de homens, mulheres, crianças, pretos, amarelos, pobres, estudantes, brancos, burgueses. Perto do palanque o povo se amontoava, ganhava lugares na base da cotovelada e dos pisões".
O hoje secretário estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Luiz Eduardo Cheida, à época presidente municipal do PT e um dos organizadores da campanha pelas Diretas na cidade, diz ficar emocionado, ainda hoje, ao se lembrar do que aconteceu naquela noite. "Aquele foi um momento especialíssimo da política local e nacional. A coisa foi tão intensa e emocionante que, enquanto Lula discursava, olhei lá do alto para o cordão de isolamento formado pelos policiais, à nossa frente, e vi que dois deles tremiam os ombros. A princípio achei que era a força que faziam para conter as pessoas, mas depois percebi que eles tremiam porque choravam compulsivamente, a exemplo de outras pessoas do público. Aquela foi uma cena que nunca esqueci", relembra Cheida, que nove anos depois se tornaria prefeito de Londrina.
Ele destaca que pela primeira vez na história da cidade vários partidos se juntaram à população, em torno de um ideal comum, independentemente de interesses partidários. "Vínhamos de anos muito pesados, de total repressão. Era preciso ter coragem para se manifestar, diferente de hoje, em que é preciso ter competência."
Para Cheida, o perfil oposicionista de Londrina, que contava com um movimento estudantil bem organizado, ajudou no sucesso da empreitada. O secretário do Meio Ambiente acredita que depois daquela noite de 2 de abril, uma certeza brotou entre os londrinenses, a de que "a coisa de fato iria acontecer". E por ser uma referência na região, influenciou os municípios menores a também renovar os ânimos. "Aquela noite deixou a impressão de que o povo tem a capacidade de se mobilizar quando há uma bandeira clara, um ideal desejado pela maioria. Nenhum outro movimento, na minha opinião, se igualou à Campanha das Diretas na alegria, na adesão em massa e na emoção. As passeatas pelo impeachment do Collor, anos depois, por exemplo, foram atos mais raivosos", define Cheida.

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