HISTÓRIA - Aos 160 anos, Paraná ainda discute sua identidade
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de dezembro de 2013
Lúcio Flávio Moura<br> Reportagem Local 
Afinal, o que une os homens e as mulheres que vivem no território paranaense? A pergunta é um desafio desde que há 160 anos uma grande porção de terra paulista virou um novo estado, a mais nova entre as unidades federativas do Sul e Sudeste (excluindo o atual Rio de Janeiro, fusão do antigo estado do mesmo nome que o território que abrigou o Distrito Federal e depois a Guanabara). O 19 de dezembro, data que marca a independência do Paraná, foi comemorada discretamente, como quase sempre ocorreu nestas 16 décadas.
"Entre os astros do Cruzeiro/ És o mais belo a fulgir Paraná, serás luzeiro!/Avante, para o porvir!" Não se ouviu, ao menos de forma retumbante pelas cidades, o estribilho do hino composto pelo castrense Bento Mossurunga e pelo guaraqueçabano Domingos Nascimento (autor da letra). Nem o pavilhão estadual, obra de Paulo de Assunção, que traz o círculo azul com a posição que o Cruzeiro do Sul figurava no céu de Curitiba no dia 29 de agosto de 1853 (dia em que foi assinada por Pedro II a lei imperial número 704, que transformou a comarca da então Coritiba em província), tremulou com mais garbo nos últimos dias da primavera. Os paranaenses escolheram a resignação, como se quisessem dar pistas de um temperamento ainda indecifrável até para nós mesmos.
Afinal, o que somos? Talvez 160 anos seja suficiente apenas para responder o contrário: não somos etnicamente homogêneos, não há festa surgida nos nossos limites que nos mobilize integralmente em data alguma. Nem mesmo o exercício de se comunicar nos identifica. Cada região se expressa e se revela no ato de falar mas nenhuma delas é classificada de paranês.
O "leite-quente-dá-dor-de-dente", com jocoso ênfase na vogal final, exageradamente pronunciada, causa tanta estranheza ao norte, gera tantas piadas quanto a pronúncia das sílabas terminadas em "r" dos pés vermelhos entre os curitibanos. Há ainda a fala gauchesca de quem mora dos dois lados do Parque Nacional do Iguaçu e a influência açoriana no sotaque litorâneo. O Brasil consagra - em uma das suas porções mais prósperas - a marca da sua diversidade, um território só ocupado totalmente em meados do século passado, após um fluxo contínuo de migrantes e imigrantes.
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