HISTÓRIA - 'A identidade é um processo em aberto no Paraná'
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de dezembro de 2013
Lúcio Flávio Moura<br> Reportagem Local 
As fortes características regionais se constituem numa barreira para a identidade estadual, de acordo com os entrevistados pela reportagem. O Estado mais novo do Sul ainda tem um triplo perfil: a parte mais antiga, que inclui a capital, o litoral e parte dos Campos Gerais e da região serrana do Centro Sul; o Norte do Estado, com grande influência do Sudeste; e o Oeste e Sudoeste, com colonização mais recente e povoada a partir de um corredor de migração por onde passaram gaúchos e catarinenses de descendência italiana e alemã. Para os três estudiosos, a situação de coexistência interna perdura por décadas e dá poucos sinais de mudança.
"A verdade é que somos muito jovens para uma integração cultural. Ainda vamos continuar assim por algum tempo", analisa Sergio Odilon Nadalin, professor aposentado da Universidade Federal do Paraná (UFPR), pesquisador e coordenador do curso de pós-graduação de História. "A identidade é um processo e no Paraná esse processo ainda está em aberto, em construção."
Para Nadalin, o Estado é ainda um conceito apenas baseado nos interesses comuns ligados a aspectos políticos e econômicos. O historiador acredita que o maior passo rumo a uma identidade só ocorreu 100 anos após a emancipação, com a ocupação total do território, sucedida pela expansão da malha viária das décadas de 1960 e 1970 e pela consolidação de meios de comunicação de alcance estadual.
Sobre a responsabilidade de Curitiba liderar este processo, Nadalin afirma: "Talvez Curitiba tenha custado demais a entender que precisava ser uma capital de fato, não só de direito. Hoje é uma metrópole que atrai paranaenses de muitas regiões. No entanto, isso não acontecia em um passado recente. A impressão que se tem é que isso resultou numa proliferação de várias capitais regionais."
Para Edson José Holtz Leme, doutor em História Social e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a heterogeneidade cultural do Paraná não pode ser vista como algo negativo. "A diversidade não é prejudicial para o Estado, ao meu ver. Pode ser até considerado um aspecto positivo. A diversidade é uma riqueza, resulta numa sociedade menos preconceituosa, mais tolerante", opina.
Leme afirma que a homogeneização cultural é um processo complicado, uma vez que o Estado não tem fronteiras e as divisas são permeáveis. "Vai levar muito tempo para a formação de uma identidade", afirma. "Identidade não se impõe, se constrói".
Para o professor da UEL, o papel da capital e das lideranças políticas não ajudou no processo. "Muitas decisões de governo distanciaram ainda mais o interior de Curitiba. Este distanciamento muitas vezes cria uma antipatia, o que resulta numa crise representativa, uma sensação de que nenhuma região é ouvida. Os governos deveriam entender que há um tom de cobrança por uma atuação mais efetiva no interior."
O historiador, entretanto, faz um alerta. "O que não pode ocorrer é uma tentativa da imposição de uma identidade artificial para o Estado. Isso não é viável." Ele compara a possibilidade ao que, segundo ele, vem ocorrendo com a construção da identidade londrinense ligada aos ingleses, que na avaliação dele é apenas um elemento secundário da colonização da cidade.
O jornalista Widson Schwartz, estudioso da história do Paraná, acredita que os curitibanos são os principais responsáveis pela falta de integração cultural entre as regiões do Estado. "Se encastelaram e as nossas diferenças internas ainda vão longe", estima.
Schwartz acredita que Curitiba funciona como uma cidade-estado, onde todos os governadores são cooptados para trabalhar a favor de interesses da região metropolitana. Ele menciona o exemplo da formação da Cidade Industrial de Curitiba (CIC), que concentrou a criação de empregos e o desenvolvimento econômico na capital e no entorno, acentuando ainda mais o desequilíbrio das forças políticas. "À época, Londrina também lançou um parque industrial, que fracassou justamente por falta de apoio do governo do Estado."
Ele lembra que mesmo os governadores que eram do interior, como Álvaro Dias e José Richa, ganharam força porque Londrina protagonizava a política estadual. Naquele período não havia eleições municipais em Curitiba por causa de uma regra do regime militar, que nomeava os prefeitos das capitais. Para Schwartz, mesmo os políticos pés-vermelhos acabavam reféns do conceito de cidade-estado, se radicando em Curitiba, um polo mais atrativo. O desequilíbrio econômico e a falta de integração cultural, assim, permaneciam intactos.


