Hipnose para esquecer o horror das batalhas
Depois de uma experiência de dois anos como voluntário no Batalhão de Guarda do Rio de Janeiro, o lavrador capixaba João Estevam Bergamo não contava mais com experiências militares em sua vida. Mas foi surpreendido com uma convocação para voltar ao estado vizinho e se apresentar para a guerra. O ano era 1943, e João tinha 22 anos. "Fiz parte do 3º Regimento de Infantaria de Niterói. Embarquei para a Itália em 30 de junho de 1944, no 1º Escalão. Não tinha medo, nem vontade de ir. Mas eu era novo, qualquer coisa servia. Não tinha noção do que iria enfrentar", revela Bergamo, hoje com 93 anos e morador de Astorga (Região Metropolitana de Maringá).
Seu papel, durante os combates, era construir pontes móveis flutuantes para pedestres e carros, colocar e retirar minas em terra de ninguém (como eram chamados os espaços neutros entre as trincheiras das duas forças inimigas, que não pertenciam a nenhum dos lados) e fazer patrulha. "Eu era da engenharia", resume. Olhando para trás, João acha que teve sorte. "Morreu muita gente perto de mim. Às vezes acreditava que só eu estava vivo." Certa vez, um amigo morreu ao seu lado, mas ele diz não se lembrar do nome.
Talvez o esquecimento tenha sido proposital. "Foi um ano perdido na minha vida. O pior de todos. Estou esquecendo muita coisa, acho bom, mas de vez em quando ainda sonho que estou na batalha. Até uma certa idade a gente lembra muito", diz o lavrador, que chegou a fazer uma sessão de hipnose com um antigo médico da cidade para tentar apagar as piores lembranças da memória. "Não gosto de falar da guerra. É melhor deixar tudo isso quieto", confessa, pouco antes do final da entrevista.
Antes de encerrar, porém, ele revela que o maior desafio foi a tomada de Monte Castelo, em uma região montanhosa da Itália. "Os alemães ficavam em situação privilegiada, no alto, e a gente tinha que subir para derrotá-los. Os americanos de um lado, os ingleses de outro e a gente no meio. Por três vezes tivemos que desistir e voltar para trás."
Apesar destas situações desesperadoras, ele afirma que sempre acreditou na possibilidade de volta. E quando voltou, procurou um lugar desconhecido para recomeçar a vida. "Eu quis desaparecer." Por isso, quando lhe foi oferecido um lote de terra devoluta no Paraná, resolveu aceitar. "Ergui um rancho, morava e fazia tudo sozinho", revela. Logo o jovem nascido no Espírito Santo conheceu Zoraida, sua companheira para o resto da vida.
Entre as raras boas lembranças da guerra, João se lembra de "um prêmio" que ganhou: sete dias de férias em Roma, para conhecer os principais pontos turísticos. "A gente saía para passear com os americanos. Tinha muita neve, então eles nos forneciam roupas adequadas e comida, a maior parte enlatada. Estes dias em Roma foram a única coisa boa da guerra." (S.L.)





