Amanhã é Dia do Soldado. Nos próximos meses faz 70 anos que o terceiro e último grupo de combatentes brasileiros embarcou no Rio de Janeiro para a Segunda Guerra Mundial. No total, foram mais de 25 mil jovens reunidos em uma missão que, para muitos, seria a pior de suas vidas. De todos que seguiram para a Itália no período de junho de 1944 até fevereiro do ano seguinte, 574 (entre mortos e desaparecidos) não voltaram. Os pracinhas, como eram chamados os soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB), saíram de diversas regiões do País, muitos deles sem nenhuma experiência militar.

Nos primeiros anos da guerra, que começou em 1939, o País manteve-se neutro, uma das causas de muitos não acreditarem na participação dos brasileiros no combate. Porém, sem que a maioria da população ficasse sabendo, Brasil e Estados Unidos começaram a negociar, o que resultou na permissão de uso pelos americanos de oito bases navais e construção de vários aeroportos (inclusive o de Curitiba), sob o argumento de que seriam usados para proteger o País de ataques dos integrantes do Eixo (Alemanha, Itália e Japão).

Em janeiro de 1942, após o ataque pelos japoneses da base naval norte-americana de Pearl Harbor, o Brasil rompeu relações econômicas e diplomáticas com os países do Eixo. A Alemanha passou então a não mais considerar o Brasil como um país neutro e começou a torpedear navios mercantes nacionais. No ano seguinte a FEB seria criada sob o argumento de vingar os cerca de mil brasileiros mortos nestes ataques alemães. E em resposta aos que consideravam ser mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra, adotou-se como lema "A cobra está fumando".

O curioso da participação brasileira nos combates em solo europeu é que o governo recrutou milhares de jovens para guerrear sob total falta de estrutura (inclusive para enfrentar um dos mais rigorosos invernos europeus, com temperaturas que chegaram a 18 graus negativos), e defender a democracia, enquanto internamente o País vivia sob o regime ditatorial de Getúlio Vargas. Estas circunstâncias, somadas às dificuldades vividas pelos pracinhas, transformou-os em verdadeiros heróis, independentemente de terem sido devidamente reconhecidos como tal, na volta ao Brasil.

O historiador Dennison de Oliveira, professor do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador do Instituto Meira Mattos da Escola de Comando Estado-Maior do Exército, lembra que à época inexistia uma mentalidade operacional no Exército Brasileiro que enfatizasse as manobras de campo e os exercícios de combate. "A falta de material moderno e atualizado para treinamento tornou tudo pior", observa.

Para Oliveira, a participação dos brasileiros na guerra não chegou a ser determinante para a vitória dos exércitos aliados, mas deve ser lembrada e comemorada sempre para se ter em conta os limites e as possibilidades de nossa inserção no cenário internacional em época de guerra. "Comemorar é importante na medida em que suscite a pesquisa, o debate e o desejo coletivo de se conhecer melhor a história", completa o professor. Segundo ele, faz mais sentido falar em participação simbólica do Brasil na 2ª Guerra.

Atualmente, uma das preocupações é preservar o acervo referente à breve existência da Força Expedicionária Brasileira. De acordo com Oliveira, este material está sob enorme risco, em função do "infame" mercado de compra e venda de relíquias e documentos históricos.

Retorno difícil

No Guia do Museu do Expedicionário 2012, elaborado por estudantes ligados ao curso de História da UFPR por meio de Programa de Extensão Universitária e sob coordenação de Oliveira, os então graduandos Bruna Estevão Costa Oliveira e Luís Fernando Costa Cavalheiro abordam os problemas enfrentados pelos ex-combatentes na volta para casa. A despeito dos muitos cumprimentos e festas, como constam em fotografias expostas no museu localizado no Alto da XV, em Curitiba, o guia lembra que a realidade encontrada pelos soldados não foi tão acolhedora.

"As garantias empregatícias e de manutenção de 50% do salário do período de guerra, oferecidas aos combatentes quando do alistamento, não foram cumpridas quando retornaram. Em solo brasileiro os ex-combatentes encontraram uma sociedade despreparada para compreender sua nova condição, e políticas que não garantiam e nem promoviam benefícios às suas necessidades. Não houve divulgação da imagem e importância dos febianos, o que contribuiu para que se permanecesse no desconhecimento seus feitos militares e com grandes dificuldades de readaptação", afirmam.

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