Há 20 anos, o arrastão dos esquecidos
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domingo, 11 de novembro de 2012
Fábio Galão <br> Reportagem Local 
No final de outubro, completaram-se 20 anos de uma confusão que hoje é pouco lembrada pela população de Londrina, mas que ilustrava um drama social de difícil solução. Entre a noite de 28 de outubro e a manhã do dia seguinte, vários meninos e adolescentes inconformados com o fechamento do Albergue Infantil realizaram um arrastão em estabelecimentos comerciais da Região Central.
Os jovens depredaram lojas e também roubaram pertences. Além disso, apedrejaram um ônibus do transporte público londrinense. Segundo registros da época, a Polícia Militar recebeu em poucas horas 76 ligações a respeito da arruaça promovida por meninos e adolescentes. Sete deles foram apreendidos, mas, como os objetos roubados não foram encontrados com eles, foram liberados em seguida.
Nos dias seguintes, os comerciantes manifestaram à imprensa medo de que o tumulto se repetisse. Enquanto isso, poder público, forças de segurança e profissionais ligados à temática da infância e adolescência debatiam a estrutura de atendimento aos jovens moradores de rua de Londrina.
O caso ganhou uma pequena repercussão nacional à época. A conclusão era que os chamados arrastões, que estavam se tornando comuns nas praias do Rio de Janeiro, não eram mais restritos às grandes cidades e começavam a assustar também os municípios de médio porte.
O Albergue Infantil, localizado na Rua Porto Alegre, havia sido fechado no Dia das Crianças. Criado cerca de um ano antes da confusão, era um braço da Casa do Caminho. O local funcionava como uma casa transitória: os adolescentes dormiam, tomavam banho e se alimentavam ali. Cerca de 40 jovens eram atendidos no Albergue. Entretanto, segundo os responsáveis pelo estabelecimento, o local teve que ser fechado porque a Prefeitura de Londrina, que teria que custear o aluguel do prédio, não fez os pagamentos. ''Nunca deram justificativa'', diz o médico Júpiter Villoz Silveira, ex-administrador do Albergue.
À época, a prefeitura informou à FOLHA que os pagamentos estavam em dia e que o proprietário do imóvel havia apresentado uma ação de despejo porque os vizinhos não queriam que o Albergue Infantil funcionasse no local.
Leonardo Aparecido Gomes, 37 anos, coordenador em Londrina do Movimento Nacional da População de Rua, era um dos meninos e adolescentes que participaram do arrastão. ''Na última vez em que fomos ao Albergue Infantil, nos disseram que não iam mais nos receber porque a prefeitura não estava repassando recursos e eles iam ter que fechar'', explica. ''A gente não tinha alternativa. Naquela época, não tinha Cras, Sinal Verde. Uns dias depois, passamos pelo Centro todo, quebrando as lojas. Teve gente que roubou roupas.''
Gomes lembra que a repercussão do caso fez o poder público tomar providências, mas que tiveram pouca eficácia. ''Colocaram a gente no buracão (o Centro Social Urbano, na Vila Portuguesa), em umas barraquinhas do Tiro de Guerra. Falavam que ia melhorar, que iam arranjar alguma coisa para a gente. Mas nunca fizeram nada. Até fizemos outro arrastão'', relata.
''Voltamos para a rua. Alguns foram para casas de recuperação. Eu fui para uma clínica em Votuporanga (interior de São Paulo) e fiquei lá nove meses. Voltei para Londrina e continuei na rua'', diz Gomes. Após passar quatro anos preso por roubo, ele decidiu mudar de vida. ''Resolvi pedir ajuda na Assistência Social (Secretaria Municipal). Usava tíner, cola, maconha, e consegui largar o vício'', afirma Gomes, que hoje não mora mais nas ruas e está procurando emprego.
Ele diz não ter mais contato com nenhum dos outros participantes do arrastão. ''A maioria está na prisão. Outros morreram'', explica. Gomes tem uma visão desesperançada da situação de crianças e adolescentes moradores de rua. ''Acho que não mudou nada. Vejo um monte de menino na rua, roubando, usando droga'', lamenta.
Na área onde ocorreu o arrastão, as lembranças do tumulto de duas décadas atrás se perderam. A reportagem conversou com vários comerciantes que trabalhavam na região em 1992, e nenhum deles se recordou do ocorrido. ''Estou aqui há 25 anos, e não me lembro de nada. Só me recordo de que sempre apareciam na rua uns meninos cheirando cola. A maioria deve ter morrido'', afirma o dono de um restaurante na Rua Sergipe.


