Graxa demais no fuzil provocou muitas baixas
O comerciante aposentado Faustino Mendes, de 93 anos, estava no final do serviço militar obrigatório, já aguardando baixa, quando o Brasil anunciou sua participação na Segunda Grande Guerra. "Minha família é de Conchas (SP), mas fui convocado a princípio para servir em Campo Grande e depois em Três Lagoas (MS). Durante os testes, torcia para não ser convocado, mas fui. Fizemos as instruções em Taubaté (SP) e embarcamos no Rio. Dezesseis dias depois desembarcamos em Nápoles. De lá fomos para Livorno e depois para Pisa ", conta.
Segundo Faustino, o regimento ainda recebia instruções de arma quando, "um belo dia", o comandante chegou convocando-os para o combate em Monte Castelo. "Ele sabia que não estávamos preparados ainda, mas, segundo nos disseram, afirmou que nós íamos combater nem que fosse no braço. Tivemos que ir para o front ainda sem armas, e ficamos ali, próximos aos outros soldados já armados. No dia seguinte, quando recebemos os fuzis norte-americanos (todas as armas utilizadas pela Força Expedicionária Brasileira na Itália eram de procedência norte-americana, substituindo as de fabricação francesa, alemã e tcheca que eram usadas até então pelo Exército Brasileiro), foi uma decepção, porque eles estavam cheios de graxa, não tinham passado por limpeza com óleo fino, e não funcionavam direito. Tivemos que ir para combate assim mesmo e tivemos muitas baixas. Só no dia seguinte, com parte da graxa já derretida, é que passaram a funcionar melhor."
Faustino, hoje morador de Maringá, foi uma das vítimas deste dia fatídico. Foi ferido nas costas, na região de Bombiana, no dia 29 de novembro de 1944. "O comando americano quis saber por que tinham morrido tantos brasileiros, e só então ficou sabendo do ocorrido. Determinaram, então, que dali em diante todo deslocamento de tropa teria que ter autorização americana, e a guerra então tomou outro rumo", revela. Ele conta que os brasileiros foram para a linha de frente "sem nenhuma noção do que era a guerra".
Em abril de 1945, o pracinha foi ferido novamente, desta vez pelo deslocamento de ar provocado por um morteiro. Ficou inconsciente vários dias, na região de Montese. Nesta época a guerra chegou ao fim, já quase na fronteira com a França. "Vi muitos amigos machucados, quebrados, do meu lado. Um grande amigo meu morreu em patrulha. Fiquei muito desiludido. No começo foi difícil, ficava nervoso quando ouvia o barulho de fogos. Acordava sempre pensando em tudo aquilo. Faz quase 70 anos que aquilo acabou e eu ainda me lembro de muita coisa."
Faustino Mendes diz ter recebido várias homenagens na volta ao Brasil, mas nunca a ajuda prometida antes de seguirem para o combate. "As autoridades fecharam as portas para quem tinha estado lá, defendendo o Brasil." A única oportunidade que lhe foi oferecida, conta, foi a de seguir carreira militar. Ele não quis. "Não tinha paciência com a rigidez da hierarquia do Exército brasileiro", argumenta. O caminho escolhido foi o comércio de auto-peças, seu ganha-pão por mais de 30 anos. (S.L.)





