Esperando o quarto filho aos 24 anos, a jovem Márcia (nome fictício) apresenta uma breve história de vida que resume a trajetória de grande parte das adolescentes que engravidam antes mesmo de completar 15 anos. Trabalho doméstico infantil, abandono, gravidez precoce e a consequente evasão escolar são alguns dos problemas sociais pelos quais ela já passou. Hoje, somam-se às dificuldades a falta de creche para deixar o filho mais novo e de escola próxima de casa para matricular os mais velhos.
Moradora do residencial Vista Bela (zona norte de Londrina), que de acordo com a Secretaria Municipal de Ação Social concentra boa parte dos casos de gravidez na adolescência no município, Márcia saiu de casa aos 13 anos para morar com o homem que viria a se tornar seu marido, na época com 20 anos. Os dois já habitavam a mesma casa, pois o rapaz, abandonado pela própria mãe, foi criado pela mãe de Márcia. A então adolescente era responsável por cuidar dos irmãos mais novos e realizar todos os serviços domésticos. "Tudo o que eu queria era sair de casa, porque não aguentava morar lá", recorda.
A moça teve a primeira relação sexual ainda mais jovem, com outro rapaz. A primeira gravidez ocorreu quando ela tinha 14 anos e, segundo conta, foi "planejada". "Eu queria ser mãe", confessa. Na época, deixou a escola ainda no sexto ano porque depois dos filhos não teve mais vontade de estudar. Vivendo com o mesmo companheiro, Márcia nunca se preocupou em evitar a gravidez. Hoje, apenas o menino mais novo mora com os pais. As duas crianças mais velhas foram ainda pequenas viver com a avó porque, segundo Márcia, fica mais fácil para eles frequentarem a escola.

Drama
Na vizinhança, a história da dona de casa Eliete Romão, de 35 anos, também carrega o drama da gravidez na adolescência. Ao contrário de Márcia, porém, o primeiro bebê não foi planejado e não veio de uma relação sexual consentida. Eliete, aos 14 anos, foi estuprada por um vizinho de 17 anos a caminho da escola e engravidou após a violência. Como o estuprador era de uma família com histórico de violência, ela omitiu da própria família a identidade do pai da criança. "Fiquei com medo do meu pai querer tirar satisfações e acabar morto".
Os nove meses de gestação foram dramáticos. Rejeitada pela família, ela também foi alvo de três tiros disparados pelo namoradinho "de portão", como definiu, que não entendeu por que ela estava grávida se eles nunca haviam sequer se beijado. "Minha sorte foi que nenhum tiro acertou em mim", conta. O bebê, fruto de uma gestação conturbada e de alto risco, nasceu morto.
Hoje, Eliete tem dois filhos, de 16 e 3 anos, frutos de relacionamentos sólidos que teve com os pais dos meninos. É casada, atualmente, com o pai do garoto mais novo. A vida estável que conquistou, porém, não apaga as marcas da violência sofrida no passado.

Vulneráveis
Violência, aliás, muitas vezes acompanha os casos de gravidez na adolescência, principalmente entre as famílias mais vulneráveis. Júlia (nome fictício), de 18, engravidou aos 17 do primeiro rapaz com quem manteve relações sexuais e, hoje, morando com a família, teme as reações violentas do ex-namorado que, quando soube da gravidez, chegou a agredi-la.
A gestação enterrou, por ora, o sonho de se tornar uma enfermeira, mas não tirou a esperança de Júlia, que até os seis meses de gravidez achou que as mudanças corporais eram fruto de uma infecção urinária. "Quando o bebê nascer, tudo vai melhorar. Também sonhava ser mãe."
Integrante do movimento "Hora de Viver", cujo objetivo é levar melhorias para a população feminina do residencial Vista Bela, a líder comunitária Sandra Maria de Souza ressalta que adolescentes grávidas muitas vezes são vitimadas pela violência do parceiro. "Alguns exibem a barriga como um troféu, mas abandonam a menina depois que o bebê nasce. Outros agridem, querem obrigar a moça a abortar", lamenta.
Para ela, os altos índices de adolescentes grávidas no bairro se explicam pela falta de oportunidades. "Faltam projetos na área de esporte, de profissionalização... Se essas meninas estivessem num time de vôlei, por exemplo, pensariam muitas vezes antes de engravidar. O problema é que elas não têm nada para fazer, não têm um projeto de vida", sentencia.
Um dos planos da associação é criar no Vista Bela um Centro de Referência para atendimento das mulheres, com oferta de cursos, atividades e atendimento em saúde. "Aqui tem muita mulher deprimida, que sofre violência doméstica. O bairro tem uma população de 18 mil pessoas, precisamos de soluções imediatas", reivindica.

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