GRANDES EVENTOS - Caso de bactéria não teria sido informado
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sábado, 15 de fevereiro de 2014
Carolina Avansini e Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 
Zenaide dos Santos, viúva de José Santi Neto, de 71 anos, a primeira vítima da superbactéria Nova Délhi em Londrina, ainda está surpresa com a notícia, que, segundo ela, ficou sabendo pela imprensa. "Em nenhum momento me disseram no hospital que meu marido estaria com a superbactéria, nem mesmo depois que morreu. Ele pegou lá dentro (do hospital) e não em outra instituição como alegaram, pois não ficou internado em nenhum lugar, somente no Hospital da Zona Norte. Tinha até recebido alta um mês antes. Só não saiu por questão burocrática e falta de comunicação entre eles", desabafa ela, lembrando que o marido já havia contraído KPC dois anos antes, no mesmo hospital.
Mesmo diante da repercussão que teve o caso, que restringiu o atendimento do pronto-socorro do hospital, a dona de casa afirma que ninguém da família foi chamado a realizar exames. "Antes do meu marido ir para a UTI, fiquei dias com ele no quarto. No velório, o caixão ficou aberto, já que não fomos alertados de nada", garante. Ela mostrou à reportagem o atestado de óbito - que só faz referência à septicemia e ao problema pulmonar crônico e lamentou o fato de o marido não ter tido chances de sobrevida da real doença. "Ele tinha vários problemas graves, mas acredito que se não fosse a bactéria poderia estar aqui conosco ainda."
A reportagem tentou contato com a direção do hospital, mas não obteve retorno até o fechamento da edição. De acordo com Paulo Costa Santana, coordenador do Centro Estadual de Vigilância Sanitária, o primeiro caso da bactéria Nova Délhi no Paraná foi o identificado em Londrina. "Os demais pacientes estão sendo investigados", afirma.
O controle desta e de outras bactérias está previsto em uma norma de 2010, editada pela Sesa, determinando que todos os hospitais realizem a vigilância dos casos de infecções por micro-organismos multirresistentes, realizando coletas de amostras de pacientes e enviando para laboratórios contratados para análise inicial e envio de amostras para o Laboratório Central do Estado do Paraná (Lacen) para testes confirmatórios. "Além disso, por essa norma, os hospitais devem executar procedimentos que visem manter sob controle os casos, impedindo a disseminação da contaminação. A principal delas refere-se à adoção da higienização das mãos", detalha.
Superbactérias
As chamadas "superbactérias" carregam genes que determinam a resistência a múltiplos antibióticos, fazendo com que esses medicamentos percam a eficácia no tratamento das infecções causadas por esses agentes. De acordo com a médica infectologista Káris Rodrigues, membro da Sociedade Brasileira de Medicina de Viagem (SBMV), o surgimento destes micro-organismos está diretamente relacionado ao processo seletivo determinado pelo uso de antibióticos. "Alguns genes provenientes de bactérias não patogênicas, quando são recebidos por bactérias potencialmente patogênicas, tornam-nas resistentes à ação dos antibióticos, havendo o risco de que passem a predominar em lugar das bactérias que são suscetíveis aos medicamentos", explica.
O principal problema, conforme a médica, ocorre quando indivíduos colonizados com essas bactérias super-resistentes disseminam esses micro-organismos em locais com baixas condições de saneamento, onde o material intestinal contaminado é liberado "in natura" no ambiente ou quando o indivíduo é internado e favorece a disseminação intra-hospitalar. Quando indivíduos são expostos a um ambiente no qual micro-organismos resistentes estejam presentes, estes podem habitar o intestino dessas pessoas, que passam a transportá-las por um tempo variável, mas normalmente limitado.
A bactéria encontrada em Londrina, a Nova Délhi, possui genes que determinam a produção de enzimas com alta capacidade de inativação de antibióticos de uma classe específica. "É frequente que mecanismos de resistência a outros antibióticos também estejam presentes nessas bactérias, tornando-as multirresistentes", acrescenta.
Káris alerta que os mecanismos de resistência das bactérias se disseminam mais rapidamente que a capacidade de gerar novos medicamentos que atuem sobre elas. Por isso, o combate ao problema depende de investimentos no uso racional de antibióticos, evitando a prescrição indiscriminada, inadequada e desnecessária desses medicamentos. Além disso, medidas de controle de infecção em hospitais e da vigilância com relação à introdução desses micro-organismos são essenciais, o que inclui lavagem de mão e não compartilhamento de utensílios médicos. "Como essas bactérias têm a chance de atingir fontes ambientais na comunidade, isso acrescenta mais um desafio para o controle da sua disseminação", afirma.


