Ter um filho LGBT não obriga os familiares apenas a enfrentarem a complexa realidade da diversidade sexual e de gênero. A questão representa um golpe, às vezes duro demais, no narcisismo de pais e mães, conforme destaca o psicólogo e professor de psicanálise Francisco Ferreira de Camargo Fernandes, do Instituto Kalima, de Londrina.

Os pais idealizam que o filho vai ser jogador de futebol, advogado, arquiteto e o adolescente, na fase de questionar e encontrar o seu lugar no mundo, diz que não é assim. "É nessa fase que existe esse golpe na idealização dos pais", explica Fernandes. "A questão é que com a comunidade LGBT, por se tratar de uma minoria e onde esse olhar opressor incide mais, esse golpe é mais duro. Ser gay não é uma fase. Alguns pais até tentam achar que é uma fase e que em algum momento isso passa. Mas isso é uma ficção que contam a eles mesmos e a única coisa que isso cria é um distanciamento entre pai e filho."

Fernandes observa que nenhum pai ou mãe é obrigado a aceitar a homossexualidade do filho. Por outro lado, nenhum filho gay é obrigado a aceitar pai ou mãe homofóbico. Mas para o bem de todos, opina o psicólogo, seria fundamental que a relação familiar fosse construída de modo saudável, baseada no respeito. "Isso vale para qualquer um, independentemente de ser LGBT. Quem tem que saber da vida dele é ele e eu, enquanto pai e enquanto mãe, posso tentar entender, participar da vida dele e enxergar esse sujeito porque o que acontece muito é que o homossexual não é nada além de gay. Ele não pode ser gay e advogado ou gay e inteligente. Se ele for gay, ele não é mais nada e isso limita muito as possibilidades dessa pessoa se expressar e ser no mundo."

O psicólogo entende que pais que passaram 40 ou 50 anos construindo uma ideia de que ser LGBT é errado não vão mudar de pensamento em pouco tempo e que é preciso que cada parte respeite o limite do outro. Mas Fernandes defende que não se pode marginalizar uma pessoa pela sua escolha de amor. "É um pouco demais você renegar esse sujeito a lugares periféricos, socialmente falando, por conta de uma escolha de amor, sendo que, talvez, caberia aos pais e aos filhos sentarem e discutirem isso. Sou um grande defensor do diálogo, mas quando conversar não funciona, é preciso procurar ajuda."

Tirar o foco de que a orientação sexual do outro destruiu a família pode ser o primeiro passo para a aceitação e a compreensão. Deixar de olhar para o que se perde e prestar atenção no que se ganha é um dos caminhos para uma boa e saudável convivência. "Família não é participar, acolher e suportar o outro, enfrentar problema? Às vezes, existem tantos problemas maiores na vida para se lidar do que simplesmente se preocupar se o João namora o Carlos ou a Ana namora a Cláudia. As pessoas ficam tão focadas na imagem que elas têm de família que perdem a realidade da família", observa Fernandes.

O psicólogo também orienta os pais a eliminarem a ideia de culpa e a entenderem que a orientação sexual dos filhos não tem relação com qualquer falha cometida no processo de criação e educação. "O que os pais podem se culpar talvez é de não terem feito tudo o que dava para fazer. Sentar com quem está nesse processo de descoberta, que está passando por um turbilhão de coisas, pode fazer toda a diferença. Permitir que o filho fale sobre seus problemas, ouvir o que ele tem a dizer sem uma posição de julgamento, mas também sem precisar passar para a outra ponta, onde tudo é permitido, tudo é possível", sugere Fernandes. "A gente tem que se preocupar em criar bons seres humanos. Se ele é LGBT ou não, isso é secundário. É melhor que ele seja uma pessoa honesta, comprometida com a sua comunidade, que se preocupa com o mundo à sua volta. E a gente cria isso dentro de casa, independentemente de ser homossexual ou não."

Fernandes acredita que todos os pais são capazes de aceitar porque a capacidade de amar está implícita no ser humano. Mas lembra que o ideal seria se o limite da aceitação não fosse "muito curtinho". "Não dá para dizer que vai aceitar só da porta para fora porque amar com condicional não é amor. Amor só é amor quando é amor sempre. Se o seu amor é tão frágil que não suporta que o seu filho traga o parceiro para sentar à mesa no fim do ano, que amor é esse que é tão pequeno e tão frágil que qualquer coisa o trinca?", questiona.

Ele propõe que, para além da orientação sexual, os pais tentem enxergar um ser humano que não é uma extensão deles mesmos. "Tem que entender que aquele ser humano é um outro ser humano, diferente de você e que você é responsável por ele."(S.S.)

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