Comerciante de Cambé, R.M. é um dos milhares de brasileiros que acreditaram na história do sucesso rápido e certeiro de um suposto esquema de pirâmide. Sete meses depois e sem ter retorno de qualquer representante da empresa, já não tem mais esperanças de reaver os R$ 2,7 mil que aplicou na Mister Colibri em agosto do ano passado. Convencido por um amigo de que era um bom negócio, o irmão de R.M. entrou primeiro investindo o mesmo valor e depois uma quantia de R$ 24 mil. ''Fiquei apenas um mês no esquema que logo em seguida começou a ser investigado pela Polícia. Nunca recebi nenhum centavo'', revela.
A função do novo integrante era comprar moedas da empresa, chamadas ''LP'', de alguém que já estivesse no esquema. Esse valor de moedas, a pessoa tinha que vender para outras pessoas e assim por diante. ''Enquanto isso, eu tinha que assistir a vídeos na internet de propagandas de marcas conhecidas. A cada vídeo assistido, ganhava uma espécie de bônus que se convertia em 80 centavos.'' O valor só era pago caso o associado assistisse a vinte vídeos em uma semana. O irmão de R.M., que investiu a maior quantia, conseguiu ''recuperar'' cerca de R$ 4 mil. ''Os R$ 2,7 mil que paguei e outros R$ 1 mil de um amigo.''
Com um investimento de R$ 7 mil que nunca mais viu, a dona de casa E.O. também foi lesada ao entrar na empresa Omni Internacional do Brasil, em Londrina, no ano passado. Animada com as promessas de ganhos elevados, entrou de cabeça no negócio que consistia em abrir lojas virtuais para a venda de produtos que a empresa disponibilizava, a partir do recrutamento de mais pessoas para adquirirem a loja virtual.
''Me pareceu um negócio muito interessante e empreendedor. Eu sei que é pirâmide, mas acho que não deu certo porque as pessoas da cidade não tiveram visão'', defende. Ainda assim, garante que não entra de novo em algo do tipo e entrou com uma ação na Justiça para tentar resgatar o dinheiro. Ambas as empresas foram investigadas pela Polícia Federal e têm ações judiciais de estelionato e golpe.
Reunião lotada
Ao acompanhar uma reunião de divulgação da Telexfree em Londrina, a reportagem da FOLHA comprovou que não é difícil se sentir seduzido pelas promessas.
Na cidade, a empresa que divulga vender serviço de telefonia VoIP, já conquistou muitos ''divulgadores'' e está se disseminando rapidamente. A referida reunião aconteceu em uma sala comercial bem confortável, com capacidade para cerca de 60 pessoas, praticamente lotada. Homens e mulheres de várias idades e diferentes perfis econômicos prestavam atenção às promessas de faturamento de um dos palestrantes, que dava depoimento de seu sucesso financeiro crescente e suas aquisições materiais desde que entrou na empresa em setembro do ano passado.
As informações passadas sobre o negócio são confusas e truncadas, com poucas citações sobre os planos de telefonia VoIP. O enaltecimento de ganhos, entretanto, inclusive com exibição do ''saldo'' do palestrante, é usado a todo momento para justificar a credibilidade da Telexfree.
Por meio de uma demonstração na tela do computador, o palestrante mostra como será o trabalho do divulgador assim que adquirir - entenda-se pagar uma cota - um dos planos disponíveis. ''Você receberá um valor X toda semana que postar os anúncios (sobre os planos de telefonia) em diferentes sites de anúncios grátis na internet'', disse. Mas em seguida, afirma que o que mais traz retorno financeiro é o recrutamento de pessoas para o grupo. ''Você tem que pensar alto e se tornar um líder do grupo, porque ganhará comissão sobre a pessoa da rede que formar.''
Em resumo, o trabalho consiste basicamente na postagem diária de uma quantidade de anúncios relacionados aos serviço VoIP em sites de classificados e redes sociais, e uma comissão irrisória sobre as vendas. O valor semanal recebido varia de acordo com o contrato adquirido. Há duas opções de planos: US$ 699 e US$ 1.299, que renderiam US$ 20 e US$ 100 por semana, respectivamente. Mas a cada pessoa que o divulgador consegue trazer para sua rede, também ganha uma porcentagem. O anunciante recebe US$ 20 a cada novo divulgador que conquistar para o primeiro plano e US$ 100 para o segundo.
Ao final da reunião, alguém questiona se o negócio é uma pirâmide. ''Tanto não é que se alguém sair não há perigo de acabar e nós temos um produto que é o Voip. Saíram várias notícias de investigação, mas ninguém conseguiu provar nada'', defendeu o palestrante.

mockup