Giz, apagador e solidariedade beneficiam alunos de baixa renda
Sem varinha de condão e usando apenas giz e apagador, um grupo de 26 professores voluntários de Londrina está ajudando a realizar o sonho de cerca de 280 estudantes de baixa renda. Entrar para a universidade é o desejo dos alunos, que estão se preparando em um curso pré-vestibular, oferecido de graça pelos voluntários. A maioria dos alunos trabalha fora e enfrenta uma série de dificuldades para estudar.
O cursinho foi criado há cerca de três anos pelo professor Ederval Fernandes Guerreiro, que leciona matemática, química e física. A primeira turma, conta Guerreiro, tinha apenas 10 alunos, que estudavam no Caic do Jardim União da Vitória (região sul). O projeto surgiu depois que senti a necessidade de um funcionário que trabalhava comigo. Ele queria estudar, mas não podia pagar o cursinho, comenta o professor, que também é micro-empresário. Dos 10 alunos da primeira turma, quatro deles conseguiram passar no vestibular da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
A idéia foi levada adiante e, no ano passado, na segunda turma de 10 alunos, mais quatro obtiveram aprovação na UEL, nos cursos de arquivologia, letras e serviço social. Neste ano, entusiasmado com os resultados, Guerreiro divulgou o cursinho na rádio da UEL. Quis ajudar os alunos que não conseguem vaga no cursinho gratuito da UEL. A procura foi enorme e até alunos de cidades vizinhas se interessaram. Além dos cerca de 280 estudantes de Londrina, outros 100 são das cidades de Cambé, Ibiporã, Uraí e Assaí. Esses estudantes, afirma Guerreiro, são transportados por ônibus escolares cedidos pelas prefeituras locais.
De acordo com o coordenador do cursinho, o elevado número de alunos acarretou alguns problemas. A falta de uma sala grande levou ao desmembramento da turma, que estuda em duas regiões da cidade, nos Caic do União da Vitória e Jardim Leonor (zona oeste), explica Guerreiro. Segundo ele, a maior dificuldade está no Caic do Leonor, que não tem anfiteatro e, por isso, os estudantes se dividiram em duas salas. Dificulta para os professores, que precisam repetir a mesma aula nas duas salas, observa. O ideal, na opinião de Guerreiro, seria arrumar uma sala grande na área central, onde os estudantes das demais regiões pudessem se concentrar.
O local ideal, segundo o coordenador do cursinho, existe, mas a porta da sala está fechada para os alunos. Pedimos para a Secretaria Municipal de Educação a sala da Supercreche. A secretária disse que a sala é usada para reuniões esporádicas, diz Guerreiro. Ele afirma que tentou conseguir salões pertencentes à maçonaria e à União Londrinense de Estudantes Secundaristas (Ules), mas desistiu. Seria necessário reformar e não poderíamos arcar com os custos, conta.
Os custos são problemas que Guerreiro vai contornando como pode. No primeiro ano do cursinho ele gastou cerca de R$ 800,00 com compra de material e até mesmo transporte de alunos. As despesas com a turma atual, afirma o professor, chegaram a R$ 3,6 mil. Comprei apostilas e o material usado pelos professores. Os alunos que podem contribuem com R$ 5,00 por mês, o que cobre parte dos passes usados por alguns professores.
O transporte, para os estudantes, representa outro empecilho. As empresas coletivas de ônibus não podem fornecer passe livre porque a liberação depende da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU). Segundo o coordenador do curso, o fato de o cursinho não ser constituído formalmente impede os alunos de requererem carteira de estudante. Eles não podem comprar passe estudantil, que custa metade do preço (R$ 0,50), e nem se encaixam na lei de passe livre.
Obstinado, Guerreiro percorre 14 quilômetros, de segunda à sexta-feira, entre o Caic da zona sul e o da zona norte. Levo marmita e aproveito os 10 minutos do intervalo, diz. Casado há oito anos, sem filhos, o professor de ciências exatas diz que tudo que faz é por acreditar no potencial dos alunos. O Estado não dá subsídio para eles competirem em pé de igualdade com vestibulandos que vêm de escolas particulares, analisa. Se o vestibular fosse uma corrida de 100 metros, os nossos alunos sairiam em desvantagem. Lutamos para diminuir as diferenças e acreditamos que eles podem chegar na frente.





