Londrina - A especialidade de ginecologia e obstetrícia é a que mais gerou processos por erros médicos no Paraná de 2001 a 2014, conforme apurou pesquisa realizada pelo advogado Raul Canal, presidente da Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética (Anadem). Segundo ele, 30% dos casos relacionam-se a esta área. Logo depois, com 14,44%, está ortopedia e traumatologia, seguida de clínica médica, presente em 11,11% dos processos.
O maior valor de uma condenação por erro médico no Estado no período foi de R$ 300 mil. Conforme a pesquisa do advogado, uma paciente de Curitiba se submeteu a mamoplastia, abdominoplastia e lipoaspiração e veio a óbito durante a cirurgia. A indenização foi paga a familiares da vítima.
Entre as sindicâncias recebidas no ano passado pelo Conselho Regional de Medicina (CRM) do Paraná, a área de ginecologia e obstetrícia também lidera os casos em que a especialidade foi citada, assim como nos processos analisados no mesmo período. Entre as 806 sindicâncias abertas em 2014, 17 eram relativas à especialidade. Já entre os 232 processos, foram 15 envolvendo a área de ginecologia e obstetrícia. A grande maioria dos documentos não cita a especialidade dos médicos envolvidos.
O médico Roberto Issamu Yosida, corregedor geral do CRM-PR, explica que no caso de ginecologia e obstetrícia as intercorrências que levam a algum tipo de dano nem sempre dependem da atuação do médico. "Um nascimento prematuro, por exemplo, acontece independentemente da interferência do médico", comenta. Mas quando ocorre algum problema maior com a mãe ou o bebê, Yosida ressalta que é comum a família "culpar" o serviço de saúde.
O advogado Raul Canal acrescenta que uma das maiores motivações de processos, no caso desta especialidade, é a demora para submeter a gestante a uma cirurgia cesariana de emergência. "O médico fica esperando, até para atender o Ministério da Saúde, que preconiza que 27% dos partos realizados pelo SUS sejam normais. Se o bebê sofre alguma sequela ou morre, a família acaba processando."
As cirurgias cesarianas também geram processos, principalmente por perfuração da alça intestinal da parturiente. Já nas cirurgias de histerectomia (retirada de útero), um dos motivos é o esquecimento de compressa cirúrgica no útero da paciente.
Nos casos coletados por ele junto à Justiça, não faltam exemplos. Em Curitiba, um hospital foi condenado a indenizar uma parturiente em R$ 100 mil pela não retirada dos restos placentários durante o parto do terceiro filho da mesma.
Em Palmas, uma mulher que não teve dilatação suficiente para o parto normal recebeu alta e teve o parto cesariano agendado para os próximos dias. Após retornar ao hospital duas vezes com dores intensas, ela foi novamente dispensada e o bebê nasceu na própria casa da paciente, com ajuda do companheiro. Após o nascimento da criança, uma vizinha cortou o cordão umbilical. O médico foi condenado em primeira instância a pagar indenização de R$ 20 mil.
Em Guarapuava, uma mulher de 46 anos morreu após ter sido submetida a uma laparoscopia para retirada de um cisto no ovário. A causa da morte foi choque séptico, abdome agudo cirúrgico, abscesso e perfuração do cólon, todos decorrentes de complicações da cirurgia. A família da vítima obteve o direito de receber indenização de 250 salários mínimos.
O especialista destaca que o volume de processos na especialidade de ginecologia e obstetrícia no Paraná está em sintonia com a média nacional, visto que a área também lidera os processos nos outros estados. "No Paraná, a única diferença é relativa a cirurgias plásticas, que têm menos reclamações", pondera.

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