GERAÇÃO SÉCULO 21 - Meninas que podem tudo
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sábado, 07 de março de 2015
Carolina Avansini<br> Reportagem Local 
No mundo onde vivem Marcela, Joana, Manuela e Gabriela, rosa não é a cor das meninas, skates e bolas não fazem parte só do universo dos meninos e matemática está entre as preferências femininas nas salas de aulas.
Integrantes da chamada geração Z, elas nasceram nos anos 2000, em casas onde já havia computadores e internet, são criadas por mães que encaram a presença de mulheres no mercado de trabalho como algo absolutamente natural e convivem com pais engajados mesmo que timidamente com conceitos do movimento feminista.
Para estas garotas, a discriminação por gênero não faz mais sentido, ao contrário da realidade de março de 1911, quando um grupo de operárias foi queimado em uma fábrica têxtil em Nova York por reivindicar melhores condições de trabalho, dando origem ao Dia Internacional da Mulher.
Um século depois, graças aos diversos movimentos que lutam pela tão almejada igualdade entre os sexos, estas meninas experimentam a possibilidade de sonharem com um futuro com menos regras e padrões definidos.
"Eu sou leve e solta", diz Marcela, 10 anos, uma menina esperta que prefere andar de skate a brincar de bonecas e tem na bola uma das melhores companheiras para as brincadeiras na rua. A mãe, a advogada e professora Camila Cardoso Lima, faz questão de criar a filha em uma realidade onde a divisão de atividades entre meninos e meninas não faz sentido. "Marcela poderá fazer o que quiser", espera ela, que já nasceu em uma família matriarcal onde o pai e a mãe dividiam responsabilidades. "Sou feminista desde pequeninha", brinca.
Por isso, não admite quando tentam impor à Marcela conceitos como "futebol é coisa de menino e balé é coisa de menina". "As escolas ainda fazem essa divisão, mas eu não aceito. Infelizmente, o machismo é naturalizado e precisa ser muito discutido para deixar de existir", opina.
Para a mãe, Marcela vai viver em um mundo com igualdade no âmbito profissional. "Não vai haver estranheza se ela escolher uma carreira onde predominem mais homens, por exemplo." Mas ainda teme que a filha seja exposta a comportamentos machistas como cantadas vulgares ou que seja vítima de desmerecimento por ser do sexo feminino, considerado "frágil" ou "emotivo".
As preocupações da mãe não parecem afligir Marcela, que tem liberdade para fazer as próprias escolhas. "Eu sou bem moleca, gosto de brincar na rua e tenho muitas amigas parecidas comigo. Mas uma vez fiquei brava em um jogo de queimada na escola, quando do professor disse que os meninos eram mais fortes", lembra ela, que sonha ser arquiteta e, engajada, espera que quando for adulta o mundo seja tão seguro a ponto de não precisar mais de leis como a Maria da Penha, para proteger as mulheres contra a violência.
A professora universitária e doutoranda em Letras Luli Hata também educa as filhas Manoela, 14, e Joana, 8, sob uma perspectiva de liberdade. Criada em uma família japonesa tradicional "para casar e ter filhos", ela própria desafiou as regras familiares ao optar por não se casar formalmente com o companheiro e pai das meninas.
Em uma família onde predominam as mulheres, ela tem a preocupação de ensinar as tarefas domésticas como uma forma de cuidado com as próprias coisas, mas sem o valor de "atividade feminina". "Também prefiro que elas façam as tarefas da escola antes de ajudar nos serviços da casa", explica.
Da tradição familiar, Luli manteve na educação das filhas a valorização do respeito, mas eliminou os preconceitos, seja por gênero, religião ou raciais. Joana e Manuela conhecem várias práticas religiosas e participam de atividades em uma casa de axé onde a mãe é voluntária. "O Candomblé é uma religião que respeita demais as mulheres e os homossexuais. Minhas filhas não têm preconceito", acredita.
Na família, Joana até teve uma experiência com o balé, mas o esporte atual da mãe e das filhas é o kung fu. A atividade foi escolhida para ensinar autodefesa e incentivar a prática de atividade física, mas também tem a função de despertar o respeito ao próprio corpo, conscientizando que todo exagero é nocivo. "Kung fu é superação de limites. A gente faz coisas que nem imaginava ser possível", diz.
O kung fu encanta a pequena Joana pelo uso de espadas, que ela pretende aprender a usar. Aos 14 anos, Manoela tem planos mais ambiciosos em relação ao esporte. "Eu quero ser uma mulher trabalhadora e independente, morar sozinha, estudar e trabalhar bastante. Ainda não sei o que vou cursar na faculdade ou qual será a minha profissão, mas com certeza vou continuar praticando o kung fu e quero me tornar instrutora", conta ela, que não pensa na família tradicional como objetivo final da vida. "Eu e minha amiga fazemos planos para morar juntas no futuro, quando estivermos cursando a faculdade. Inicialmente isto era uma brincadeira, mas eu sempre achei legal a ideia de dividir um apartamento com uma amiga. Acho que seria uma experiência muito divertida", planeja.


