Gentileza gera gentileza? Na tentativa de comprovar a máxima popularizada pelo artista José Datrino, mais conhecido como profeta Gentileza, que durante vinte anos circulou pelo Rio de Janeiro propagando o amor, o respeito e a cortesia como alternativa ao mal-estar da civilização, uma equipe de repórteres da FOLHA fez o teste de surpreender pessoas desconhecidas com comportamentos extremamente gentis. O resultado da experiência pode ser conferido em relatos nesta reportagem.
No ônibus, no posto de saúde, no supermercado, pelas ruas da cidade e até no estressante trânsito, a cortesia foi recebida com um agradável estranhamento pela maioria das pessoas abordadas. A conclusão é que a gentileza, esse comportamento tão desejado por todos, está caindo em desuso. Excesso de preocupações, estresse e até mesmo falta de tempo para ser educado com o próximo são as principais justificativas para o abandono do hábito.
''Não tenho dúvidas de que a gentileza gera gentileza'', afirma a analista junguiana Sônia Lunardon Vaz, uma entusiasta da cortesia, que coleciona experiências sobre este bom comportamento. ''Tem gente que não responde quando dizemos 'bom dia' e tem gente que fica até emocionada quando tratada com educação'', conta.
Segundo ela, o meio provoca comportamentos. ''Quem vive em ambientes gentis terá mais facilidade no exercício da cortesia. Já as pessoas acostumadas à hostilidade tendem a agir da mesma forma''. Sônia afirma que as reações adversas à gentileza são comuns. Aquelas situações em que um ato gentil é recebido com indiferença ou até mesmo grosseria relacionam-se, principalmente com o que, citando Michel Focault, a analista chama de ''microfísica do poder''.
''São pessoas que, para esconder um sentimento de inferioridade, acham-se muito poderosas e recebem a gentileza como uma simples obrigação do outro. Um exemplo banal é o motorista que não respeita a faixa de segurança'', comenta. Nessas situações, o segredo é não se ofender e continuar sendo gentil.
A confusão entre gentileza e um hipotético assédio sexual é outra causa das reações grosseiras à cortesia alheia. ''Normalmente, é fruto da imaturidade, porque o assédio sexual costuma ser mais contundente. Em todo caso, sempre existe a opção de colocar um limite. Não é preciso se defender antes'', acredita ela, que observa ainda que as pessoas têm mais dificuldade em receber do que praticar a gentileza. ''É aquela coisa de não aceitar por medo de incomodar.''
Apesar de tantas explicações, Sônia considera ''estranho e terrível'' o fato dos comportamentos gentis surpreenderem os seres humanos. ''É reflexo de uma sociedade decadente, onde a maioria é individualista e egoísta. Tocar e ser tocado passou a ser visto como uma coisa negativa. Por isso, inclusive, que muita gente tem medo de se apaixonar. Por medo de perder, eliminam a possibilidade de ganhar'', avalia.

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