GEADA NEGRA - 'Marco divisor' na agricultura do Estado
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de julho de 2015
Widson Schwartz<br> Especial para a FOLHA 
O frio afetou a maior parte da cafeicultura brasileira em 1975, mas em nenhuma outra região houve estrago igual ao que se viu no Paraná. Tanto que a geada, que despontou na tarde de 17 de julho e se consumou às primeiras horas de 18, se converteu no fator que mais apressou a mudança na agricultura do Estado.
Nos primeiros anos da década de 1960, o próprio governo estadual conduzia um "plano de diversificação da lavoura", estimulando a mecanização e o uso de sementes selecionadas de soja, algodão e trigo. "Achávamos que um Estado sujeito a geadas não podia depender da monocultura cafeeira", segundo o então governador Ney Braga.
Houve naquele período uma tragédia que motivou a campanha "Socorro ao Paraná em flagelo", despertando a solidariedade de outros países. Estiagem prolongada e cafezais ressequidos, após a geada em julho de 1963, facilitaram os incêndios na zona rural a partir de agosto, que se alastraram por dois milhões de hectares em 100 municípios, deixando no rastro centenas entre mortos e feridos e 5,7 mil famílias desabrigadas.
Evidentemente, o governador não tinha culpa, mas o poeta Mário Romagnolli o fez personagem de uns versos que se popularizaram: "Oh! Paraná, quanta praga. Geada, fogo e Ney Braga!"
"Manter nossos cafezais em zonas logicamente recomendáveis" e "paralelamente diversificar os cereais, as plantas oleaginosas e têxteis e desenvolver a pecuária" - a nova diretriz na Associação Rural de Londrina (ARL) em 1964. Em 1966, a Sociedade Rural do Norte do Paraná (SRNP), sucessora da ARL, decide "reivindicar ao Sr. Presidente da República um instituto de pesquisas". Tais iniciativas passaram a corresponder a uma decisão maior de "modernizar a agricultura", do governo ditatorial, que assumiu o país em 1964.
O Paraná havia se convertido no maior produtor brasileiro na safra 59/60 e ampliado a participação em 1961, desde quando a soma de cafeeiros erradicados (por estímulo oficial) e abandonados chegou a 470 milhões em 1967. Com a ferrugem a partir de 1970, ao mesmo tempo em que "a tecnificação passou a ser imprescindível para o controle da doença, as lavouras mal cuidadas entraram em completa decadência, dando continuidade à erradicação".
Em 1975, porém, o Paraná ainda ostentava "32% da população cafeeira nacional e a geada eliminou 200 milhões de pés, enquanto que os 700 milhões restantes foram severamente danificados", relacionou o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar).
Foi uma "geada negra", pelo vento gelado. Contemporâneo do fato e historiador em "A epopeia do café no Paraná" (2006), o engenheiro agrônomo Irineu Pozzobon relata que após a chuva no dia anterior (16) "a região cafeeira foi tomada por rápido abaixamento de temperatura acompanhado de vento, prenúncio do desastre iminente". Na tarde de 17, os ponteiros e o lado das plantas exposto ao vento já exibiam sinais de queima. À meia-noite, céu limpo e brisa leve, a temperatura saiu de zero (0° C) para cinco graus negativos em poucas horas e penetrou "até o tronco dos cafeeiros, comprometendo 100% da safra seguinte e parte das subsequentes".
Passados 40 anos, Ruth Bárbara Steidle recorda que foi em plena colheita na propriedade da família, a Fazenda Bimini, em Rolândia. Mesmo com a geada, houve a necessidade de comprar peneiras. Incumbida, Ruth chegou à "Casa Abrunhosa" e ouviu do "velho comerciante" a sentença: "O café vai acabar". Fez preço de custo para Ruth e reafirmou a convicção: "Sei que nunca mais vou vender peneiras".
O pioneiro Abrunhosa, que se estabelecera em 1935, provavelmente recordava devastações anteriores: as geadas de 1953 e 1955 "queimaram" 58% e 65% dos cafezais respectivamente; a de 1969 dizimou 70% e a de 1972, 58%. Mas em 1975, nada sobrou.
Um dos mais eficientes cafeicultores no país, Wilson Baggio tinha aproximadamente um milhão de pés, em Cornélio Procópio e cercanias (Norte Velho). "Não sobrou nada", ainda que tivesse recorrido à nebulização por máquina durante a noite, conforme seu depoimento à Folha de Londrina (Rural, 17/7/2010). A onda polar "atingiu os cafezais até nos lugares mais altos como também pastagem, encosta, mata virgem, capoeira, milho, feijão e todas as lavouras suscetíveis ao frio".


