Garoto levou tiro dentro de viatura
Ele é um garoto franzino, com os ossos se sobressaindo nos braços e pernas finos. Cabelos raspados, fica com a cabeça baixa na maior parte do tempo. Quando mantêm contato visual com o observador, os olhos grandes parecem saltar no rosto delicado e sem marcas. As marcas estão no corpo e no olhar. Ele parece ter medo. Parece não saber mais como encarar a vida.
Jony Otávio Torres, 15 anos, faz aniversário hoje, 7 de outubro. De presente, o menino gostaria de ter ganho duas coisas: Justiça e uma nova cadeira de rodas.
Até há cinco meses, Jony andava normalmente. Mas a bala de um policial militar, alojada na sua coluna vertebral, acabou com seus sonhos.
Jony está preso em um cadeira de rodas emprestada, tão velha que não tem freios. Não pode nem sair de casa.
Jony foi uma das vítimas da violência policial e até hoje não viu seus agressores serem punidos. O policial militar que atirou em Jony, Paulo Roberto Daniel, continua na ativa, no serviço reservado da Polícia Militar, a P2. Os outros dois policiais que acompanhavam Daniel, identificados apenas Santos e Costa, também trabalham normalmente no 5º BPM de Londrina. Para eles, nada mais grave aconteceu.
No dia 6 de abril deste ano, Jony foi acordado por dois policiais que entraram na casa de sua mãe, no Jardim Maracanã (zona oeste de Londrina), atrás de um adolescente que teria participado de um roubo em uma residência no bairro.
Eram quase 11 horas e o garoto estava sozinho em casa. Arrancado da cama, Jony foi levado - vestindo apenas bermudas, segundo várias testemunhas - até uma viatura descaracterizada, um Fiat Uno branco, onde outro policial aguardava. Jony saiu de casa caminhando. Voltou 15 dias depois, em uma cadeira de rodas.
''Eu acordei com eles me batendo e gritando. Me arrancaram da cama, me bateram, querendo que eu dissesse onde 'era a boca'. Quando eu respondia que não sabia, me batiam mais. Aí me algemaram com as mãos para trás e me jogaram dentro do carro. O Paulo foi comigo no banco de trás, sempre me batendo. Ele era o mais louco. Pôs duas balas no revólver e enfiava o cano nas minhas costas, dizendo que ia fazer um estrago. E apertava o gatilho. Os outros falavam para ele não fazer aquilo, para não me machucar, mas ele falava que tinha que fazer sim. Ele apertou o gatilho quatro vezes. Na quinta, o revólver disparou e me acertou'', recordou, as palavras se atropelando, rápidas, repassando mais uma vez seu drama.
Jony não lembra, mas um segundo tiro também foi disparado. Um dos disparos atingiu o abdômen do menor, que teve o fígado e um dos rins perfurados. O outro tiro atingiu um dos braços, causando fratura exposta. Jony perdeu o rim e corre o risco de ficar paraplégico permanentemente. Os médicos que atendem o garoto ainda não têm uma previsão se ele vai voltar a andar.
Jony garante que nunca teve uma arma e também que nunca se envolveu em crimes e assaltos. O Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator (Ciaadi) não registra nenhuma passagem do adolescente.
Segundo a versão da PM, Jony foi preso na rua durante uma operação para identificar quatro rapazes que assaltaram uma casa no Jardim Maracanã. Na época, o comando da PM afirmou que o adolescente, dentro da viatura, apontou um revólver calibre 22 contra um dos policiais. Segundo a PM, o outro policial apenas reagiu.
Mas a versão da PM foi desmentida pela dona de casa Maria Grego, 45 anos, vizinha do menor e principal testemunha da abordagem policial e do inquérito que aberto pela Polícia Civil. Segundo disse Maria, na época do fato, tudo ocorreu com Jony descreveu.
O adolescente está hoje aos cuidados da tia, Aparecida Otávio, a Neusa, 38 anos, porque a mãe não tem condições financeiras e emocionais de ajudá-lo. Para a Neusa, os policiais que feriram seu sobrinho ''são pior que animais''. ''Mas eles estão soltos e meu sobrinho tá aqui, enterrado vivo'', diz. (T.E.)





