FORÇA ORIENTAL - Uma sexagenária de 82 anos
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de setembro de 2015
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 
A Associação Cultural e Esportiva de Londrina (Acel) completa este ano, juridicamente, seis décadas de existência como sociedade por ações. Para comemorar a data, o clube realiza na manhã de hoje um culto religioso e uma cerimônia em homenagem a pessoas que fizeram parte da história da entidade. Como parte das comemorações também será realizado o 1º Festival Gastronômico.
A origem da Acel, porém, é muito mais antiga. Remonta aos primeiros anos da existência de Londrina, quando em 11 de abril de 1933 os japoneses dos núcleos coloniais de Londrina e região se uniram para fundar o nihonjinkai (associação japonesa). Portanto, embora documentalmente o clube tenha seis décadas de existência, já são mais de 82 anos de história.
A professora Stella Cristina Okabayashi Fuzii, estudiosa da história da entidade, levantou que a reunião que definiu a fundação do nihonjinkai no início da década de 1930 aconteceu na residência de Hikoma Udihara, agente geral da seção japonesa da Companhia de Terras do Norte do Paraná.
Segundo ela, a partir dessa união, o grupo realizou reuniões para discutir as demandas da comunidade japonesa em Londrina e decidiu construir uma escola japonesa na Rua São Jerônimo (centro), considerada a primeira escola urbana de Londrina. A unidade foi construída antes mesmo de qualquer escola pública da cidade, e a primeira professora foi Toshiko Zakoji.
A inauguração ocorreu em 18 de junho de 1933, dia em que se comemorava os 25 anos da imigração japonesa no Brasil. Devido à demanda, logo o espaço ficou pequeno e foi transferido para a Rua Hugo Cabral, esquina com a Pio XII. Na época houve um mutirão que contou com a ajuda de todos os japoneses da comunidade local e com a contribuição da Companhia de Terras Norte do Paraná, que permitiu o corte de árvores para fornecimento da matéria-prima da construção. O telhado veio de Cambé e as perobas, da retirada da derrubada da mata em Londrina. Na época Simon Fraser, o Lord Lovat, contribuiu com recursos para a edificação.
Stella relata que o levantamento desses dados foi difícil porque muitos documentos escritos em japonês referentes a esse período foram destruídos. Essa destruição ocorreu devido à ascensão do nacionalista Getúlio Vargas ao poder, em 1937, e ao surgimento do Estado Novo. Na época, antes mesmo da Segunda Guerra Mundial, houve a proibição do ensino do idioma nipônico e a circulação dos jornais em língua japonesa. O governo brasileiro também impôs restrições severas à vida comunitária dos japoneses. "Eles foram obrigados a queimar todos os documentos escritos em japonês. Para obter essas informações eu tive de fazer entrevistas com ex-presidentes e outras pessoas que viveram aquela época. A documentação se perdeu. Ficaram esses depoimentos", apontou.
Ela conta que seu avô, Taichi Okabayashi, foi o segundo presidente do nihonjinkai e, a partir de seus relatos, ela procurou outras fontes. A pedagoga Estela Okabayashi Fuzii, mãe de Stella Cristina, é a atual diretora do Núcleo de Estudos da Cultura Japonesa (NECJ) e recorda-se da época em que o idioma japonês era ensinado de forma clandestina. "Meu pai combinou com o professor Sato e fez um pequeno quadro negro na sala. Na época ele fechava bem a porta e a janela e minha mãe ficava circulando no jardim para ver se não chegava alguém. Nessa sala o professor Sato dava aula para minha irmã e para três crianças da vizinhança, mas na hora de sair elas não saíam todas de uma vez para não levantar suspeitas", relatou.
No pós-guerra, Stella revelou que a comunidade se organizou melhor. Na década de 1940 acontece a expansão da cultura cafeeira, o que gera uma riqueza muito grande e fortalece ainda mais esse grupo étnico.
Segundo a historiadora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Cacilda Maesima, é recorrente na historiografia que havia harmonia entre as raças no início da colonização. "Mas nos meus estudos verifiquei que havia xenofobia. Teve muito sofrimento e perseguição. Muitos japoneses acharam que o Brasil era uma coisa e era outra", apontou.
Cacilda relata que esse associativismo foi importante, já que os japoneses, que não dominavam bem o idioma português e estavam em uma terra estranha e hostil, enfrentavam uma campanha antinipônica. "O deputado Miguel Couto ficou incomodado com alguns dos grupos étnicos que chegaram como imigrantes ao Brasil e um deles era o japonês. Nessa época o Congresso estabeleceu uma cota para impedir que imigrantes japoneses viessem para o Brasil", relatou Cacilda. Couto argumentava que o Japão adotava uma política expansionista e ficou incomodado quando o próprio governo japonês passou a adquirir propriedades no Brasil para acomodar esses imigrantes. "Mas queriam branquear a raça brasileira por isso priorizaram a vinda de europeus, a maioria composta por italianos, portugueses e espanhóis", apontou.
LEIA MAIS
Acel revelou grandes nomes da natação
Fase áurea do beisebol


