Um salão de cerca de 25 metros quadrados, de paredes brancas, com alguns desenhos sagrados e uma pilastra de madeira ao centro enfeitada com flores. À frente, um altar com duas cadeiras imponentes, imagens e instrumentos de percussão, como atabaques e chocalhos. Esta é, basicamente, a composição do terreiro de candomblé de ketu, que a reportagem da FOLHA visitou no último domingo, em Ibiporã. O dia em questão era uma festa para celebrar e reafirmar os votos de três "filhos de santo" da casa.

Tanto as roupas do pai de santo ou babalorixá, responsável pela casa, quanto as dos seguidores, são brancas com um ou outro detalhe em cor. Os homens de calça e blusa, e as mulheres de vestidos com saias armadas. A maioria com turbantes na cabeça. Todos, sem exceção, carregam colares, chamados de guias, cada qual representando seu orixá protetor e sua posição na hierarquia da religião.

A cerimônia inicia-se com cânticos na língua africana "yorubá", acompanhados por instrumentos de percussão durante toda a celebração. Em quase quatro horas de cerimônia, 16 orixás da casa são reverenciados, com músicas e batidas do atabaque específicas para cada um. Enquanto isso, eles formam duas rodas, vão girando e dançando em torno da pilastra. Cada orixá possui uma coreografia diferente.

Como se tratava de uma festa, os filhos de santo em questão usavam roupas mais suntuosas e adereços em homenagem ao seu "orixá de cabeça", também chamado popularmente de santo, que é descoberto em jogo de búzios antes mesmo da pessoa realizar a "feitura de cabeça" ou "obrigação". Esse ritual é que marca a iniciação da pessoa na religião. Já a reafirmação é realizada um ano, três anos e sete anos depois da iniciação. Quando este tempo é atingido, a pessoa passa a ser pai ou mãe de santo e, caso queira, pode abrir um terreiro.

Durante toda cerimônia, o que se via era alegria e entusiasmo nas danças – algumas elaboradas - e cânticos, onde jovens, inclusive crianças, dividiam o espaço em harmonia. A hierarquia e o tempo na religião também podiam ser presenciados por meio de pedidos de bençãos aos mais velhos ou experientes. Há ainda um tempo reservado à saudação da paz, quando as pessoas presentes se abraçam e fazem votos positivos.

Um momento que chama bastante a atenção é quando a pessoa "vira no santo". Ao contrário de outras religiões afro-brasileiras, no candomblé não há incorporação, mas a manifestação do orixá, que é uma força da natureza. Nesta hora, é possível observar que a feição do filho de santo muda e ele também emite alguns gritos característicos de cada orixá, ao mesmo tempo em que dança. Por onde ele passa, as pessoas batem palmas, emitem seu grito de guerra e erguem as mãos em sinal de respeito.

Ao final de todos os cânticos, o último a receber saudação é Oxalá, considerado o orixá da paz e da criação. Em seguida, como se tratava de um encontro festivo, foi servido um jantar com muita comida a todos os presentes, incluindo o público visitante, que não participa dos encontros restritos realizados ao longo do ano.(M.T.)

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