Quem conversa com Fernanda não imagina o que ela já viveu. Com 12 anos de idade, depois que fugiu de casa, veio de Borrazópolis (84 km ao sul de Apucarana) e começou a se prostituir em Londrina há 24 anos. Seus pontos eram em bares da região central e a Praça Rocha Pombo. Há dois anos abandonou a atividade na noite e passou a dedicar-se aos filhos e a neta. ‘‘Hoje são meus filhos que me bancam’’, diz Fernanda.
Tristezas dos tempos em que se prostituia ela diz não ter. ‘‘De certa forma eu era feliz porque podia fazer de tudo para meus filhos’’. Foi justamente a independência financeira que a segurou nas ruas por pelo menos 20 anos.
Com o dinheiro que ganhava criou os filhos e construiu a casa em que mora, equipada até com piscina. Mesmo quando tinha emprego fixo como camareira em um motel, ela não abandonou os ‘‘programas’’. ‘‘Recebia em cruzeiro e naquela época era bom porque aplicava 100, por exemplo, e rendia 80’’, lembra.
Com o conhecimento acumulado nos anos em que frequentou a Rocha Pombo ela afirma que ‘‘a praça era muito boa e se pagava muito bem’’. Com o passar dos anos, a economia em Londrina deu uma desaquecida e entre a metade dos anos 80 e início dos anos 90 se mudou para Ribeirão Preto (interior de São Paulo) em busca de mais rentabilidade, retornando ao Paraná depois desse período. ‘‘Lá corria mais dinheiro’’.
Humilhação também não existia nessa época. ‘‘Nenhum freguês chegava e perguntava se a gente fazia de tudo. Eu só fazia ‘papai e mamãe’’’. Outra mudança daqueles tempos para hoje, segundo Fernanda, foi o aumento da concorrência nas ruas e a diminuição da clientela, ‘‘que consegue sexo fácil sem precisar pagar’’.
Sua principal reclamação do tempo em que era ‘‘garota de programa’’ é sobre as operações pente-fino realizadas pela Polícia Militar. ‘‘Tinha sempre alguém da polícia que avisava a gente antes e eu ia me esconder no estacionamento do Hotel Berlim’’, lembra. (L.A.)

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