Fazer o bem - A volta por cima, graças à comunidade
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domingo, 22 de novembro de 2015
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Depois de enfrentar uma crise que quase causou o fechamento da instituição, o Hospital do Câncer de Londrina comemora, atualmente, o investimento em reformas, ampliações e tecnologia para melhor atender os pacientes que vêm diariamente de mais da metade das cidades paranaenses em busca de tratamento. A "volta por cima" começou a ocorrer há pouco mais de dez anos, quando o casal Nelson e Dilza Dequech assumiu a administração e investiu fortemente na mobilização da comunidade para garantir os recursos necessários ao funcionamento.
Hoje, um exército de pessoas se dedica a doar dinheiro, alimentos, material de limpeza e força de trabalho para garantir os serviços. A gestora de eventos e captação de recursos Valéria Canônico conta que, graças à população de Londrina e região, a instituição consegue se manter e guardar o dinheiro que seria usado em manutenção para investir em melhorias.
"Um dos motivos de tanta solidariedade é a causa. O câncer acaba mobilizando as pessoas porque todo mundo conhece alguém que enfrentou a doença", diz. Outro fator, segundo ela, é a credibilidade e a transparência da atual gestão. "Sabemos a destinação de tudo que recebemos. As pessoas confiam que as doações serão bem empregadas", conta.
O Hospital do Câncer realiza 1,8 mil procedimentos diários, sendo mais de 90% deles realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em dez anos, foi possível fazer uma ampliação de oito andares na sede e construir um anexo que funciona como um prédio de apoio. Os gestores reconhecem o investimento do poder público, mas destacam que as doações da comunidade são o "carro-chefe". "Recebemos muita ajuda através dos carnês mensais que as pessoas pagam religiosamente, com doações a partir de R$ 10. O hospital sobrevive graças à comunidade", revela, lembrando que toda ajuda é sempre bem-vinda. "O tratamento oncológico é extremamente caro. Hoje nos transformamos em um centro de alta complexidade", reconhece.
Para organizar a arrecadação e destinação de doações, Valéria conta que foi preciso profissionalizar o setor de eventos e captação de recursos, um mérito de Dilza Dequech, que também trabalha diariamente no HCL como voluntária exercendo a função de coordenadora de voluntariado e captação de recursos. "Ela montou o departamento e colocou profissionais especializados para trabalhar. O apoio da mídia local, que sempre divulgou as necessidades do hospital e as conquistas realizadas com as doações, também ajuda muito", relatou Valéria.
Dilza conta que uma perda enfrentada pelo casal foi a motivação para trabalhar em prol do Hospital do Câncer de Londrina. "Hoje, somos motivados pela oportunidade de fazer o bem a tantas pessoas", considera.
Ela acredita que as doações são consistentes porque a comunidade sabe que precisa do hospital funcionando. "Estamos de portas abertas a todos, sem distinção", reforça, lembrando que pacientes e familiares que receberam atendimento sempre retornam para ajudar. "Cada voluntário forma um grupo, a ajuda vai aumentando e se forma uma verdadeira corrente do bem", comemora.
Voluntários
Outra ajuda valiosa recebida pelo Hospital do Câncer de Londrina é o trabalho voluntário prestado por mais de 300 pessoas que doam, semanalmente, pelo menos quatro horas do seu tempo na realização de serviços nas áreas de acolhida, prontuários e farmácia. Um destes voluntários é o aposentado Júlio de Assis Pimenta, de 56 anos, que há 2 anos e meio trabalha voluntariamente no acolhimento dos pacientes.
Ele conta que decidiu ajudar o hospital porque trabalhava como tecnólogo em eletrotécnica, que é considerada atividade de risco, e por isso se aposentou cedo. "Eu podia continuar trabalhando, mas decidi ser voluntário para ajudar", revelou. A ideia inicial era prestar serviços na área de manutenção. A oportunidade, entretanto, apareceu no setor de atendimento aos pacientes, função que ele abraçou e não se arrepende. "Eu tinha receio de não suportar, de passar sentimento de tristeza para os pacientes, mas isso não aconteceu, porque sempre fui brincalhão e agitado. Hoje me sinto realizado", comemora.
A motivação para o voluntariado veio das notícias sobre as necessidades enfrentadas pelo hospital. "Atendemos mais da metade do Estado do Paraná", contabiliza Pimenta, que se comove ao lembrar das histórias dos pacientes que já ajudou. "Registro tudo em um caderno para, quem sabe, escrever um livro", planeja.
No trabalho no hospital, ele garante que se sente útil. "É muito melhor que ficar em casa", avalia, dando uma dica preciosa para quem tem vontade de se voluntariar, mas teme não saber lidar com o sofrimento alheio. "A gente não pode levar as histórias tristes para casa", ensina. O trabalho voluntário, segundo ele, traz muito mais alegrias que tristezas. "Quando um paciente se recupera, todo mundo se emociona. É isso que me deixa cada vez mais motivado", diz.


