Faltam pesquisas sobre assistência
A experiência de ter que lutar por um parto humanizado em Londrina, há sete anos, quando nasceu a filha Iara, levou a pesquisadora Ana Carolina Franzon a deixar o jornalismo e enveredar para as pesquisas em saúde comunitária. Atualmente, ela realiza doutorado em Saúde Materna na faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto e, após entrevistar 1,3 mil mulheres da cidade paulista, pôde confirmar relatos de gestantes que foram vítimas de violência, apesar de muitas vezes os acontecimentos não serem reconhecidos como tal. Entre os exemplos, ela cita mulheres que não estavam acompanhadas quando receberam anestesia, a realização de cesáreas após horas de trabalho de parto e a sensação de que foram enganadas pelas equipes médicas depois do desfecho, restrição à presença de acompanhantes e não oferta de analgesia no parto, além da prática da episiotomia sem consentimento.
Desenvolver políticas públicas para melhorar este atendimento, porém, esbarra na dificuldade que é a falta de dados sobre o tema. Isso porque, segundo Ana Carolina, os sistemas de informação do Brasil registram as mortes maternas, o tipo de parto e as condições de nascimento dos bebês, mas não falam como foi a assistência à gestante. "Não há, por exemplo, dados sobre presença de acompanhante ou uso de intervenções desnecessárias", relata, destacando que a pesquisa "Nascer no Brasil", realizada em 2010, revelou que 40% das mulheres entrevistadas afirmaram ter sofrido a Manobra de Kristeller, que consiste em empurrar a barriga e que hoje não é mais aconselhada porque impõe riscos. "Mas só temos relatos das mulheres, não há registros em prontuários", diz, apontando que existe um descompasso entre o que é dito e o que é descrito nos registros médicos.
Ela lembra que a morte de Alyne da Silva Pimentel Teixeira, aos 28 anos, grávida de seis meses, por falta de atendimento adequado na rede pública de saúde em 2002, no Rio de Janeiro, levou o Brasil a ser condenado internacionalmente pelo Comitê para Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra Mulheres (Cedaw) da Organização das Nações Unidas (ONU). O caso, ocorrido em Belford Roxo, fez a Corte determinar uma série de recomendações ao Brasil para diminuir os números de morte materna no país. (C.A.)





