Falta de desejo sexual atinge 44%
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sábado, 31 de março de 2001
Katia Michelle De Curitiba 
O rádio grita que um tapinha não dói. Na tevê, um bela mulher com corpo escultural sugere a venda de um carro. No painel da esquina, um casal se beija fervorosamente para divulgar um novo sabor de pasta de dente. Com tanta erotização assim, a impressão é que toda a população se encontra muito bem resolvida sexualmente. Obrigada. Certo? Nem tanto. Pelo menos é o que mostra a pesquisa do Núcleo de Estudos de Sexologia de Curitiba, que constatou que nos últimos seis anos, o número de pessoas que sofre algum tipo de disfunção sexual dobrou.
Em 1995, de um universo de 5 mil pessoas entrevistadas, 22% apresentavam disfunção de desejo, ou seja, falta de tesão. No ano passado, do mesmo número de pessoas entrevistadas, 44% confessaram ter problemas para despertar o desejo sexual. O tesão é aquele desejo sexual quase incontrolável que é aguçado por alguns fatores externos.
Segundo a médica sexóloga Marilene Cristina Vargas, que escreveu o livro Manual do Tesão e Orgasmo 2001, o tesão depende de todos os sentidos do ser humano. Ao sentir tesão, ela esclarece, olfato, visão, audição, tato e até paladar se potencializam. Mas o tesão começa pelo odor. Se o cérebro recusa o cheiro da pessoa, dificilmente a relação vai ser boa, observa.
No seu livro, Marilene dá uma série de dicas e técnicas para quem quer aprender a desenvolver esse desejo e tirar o melhor proveito das relações sexuais. De acordo com a médica, o estresse da vida cotidiana colabora para que as pessoas sintam menos desejo sexual. O comprometimento da qualidade de vida, segundo ela, tem contribuído para o aumento das disfunções sexuais, ainda que a erotização, ou o excesso dela, esteja em voga.
E se a mídia sugere uma sociedade de bem com relacionamentos sexuais, como se todos os fetiches e desejos fossem absolutamente normais e de fácil resolução, a prática mostra uma realidade diferente.
A psicóloga Maria Luiza Dávila Pereira, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), argumenta que a disfunção sexual é histórica. As pessoas nunca se resolveram sexualmente, enfatiza. Essa insatisfação se revela agora numa postura comportamental modificada, onde a mulher, de caça, passou a caçadora, gerando uma insegurança no comportamento masculino. Isso contribui para comprometer as relações afetivas, pois as pessoas inseguras são inibidas sexualmente, justifica Maria Luiza. Mas há esperança. Não com mecanismos externos, ou manuais, conforme acredita a psicóloga, mas voltando-se a uma relação onde a troca é essencial.
Para Maria Luiza, apenas técnicas não podem garantir uma satisfação sexual. As pessoas se sentem atraídas ou repelidas por condições internas, que depende da personalidade de cada um, complementa. Os motivos que levam a uma pessoa a sentir tesão, segundo ela, estão diretamente ligados a fatores psicológicos, que dificilmente podem ser apreendidos.
A psicóloga destaca que uma relação sexual saudável é aquela onde os parceiros se sentem escolhidos e estão dispostos a permutar sensações afetivas. O que é feito em termos de ação sexual, sugere ela, cabe a cada pessoa ou casal definir. Desde que não cause problemas físicos ou emocionais para qualquer uma das partes, tudo é permitido, conclui.


