'Faço bolinho sem ovo, coisas assim...'
A falta de garantia de direitos é uma realidade na casa da desempregada Claudinéia de Araújo, que sustenta seis filhos entre 8 meses e 16 anos com a renda recebida pelo marido em um lava jato, no conjunto Jerônimo Nogueira, na Zona Norte. Sem acesso a creches, quando estava empregada ela contava com a ajuda dos mais velhos nos cuidados com os mais novos para poder trabalhar. "A verdade é que eles ficavam na rua", conta ela, que recentemente teve que acionar o Conselho Tutelar e ficou um ano com processo correndo na Justiça para conseguir vaga na escola para o filho de 6 anos.
A vaga só foi ofertada há poucas semanas, em uma escola distante do bairro, o que obriga a criança a ir sozinha todos os dias, de ônibus com uma amiga de 11 anos, até o colégio. "Não tenho como pagar a minha passagem", diz a mãe, que se preocupa diariamente com a segurança dos filhos que estudam em cinco escolas diferentes. "Se fosse no mesmo local, eles poderiam ir juntos", diz.
Para ela, essa situação revela o "pouco caso" dos governos em relação à população de baixa renda. "Colocam a gente num lugar longe de tudo e não oferecem qualquer estrutura", cobra.
Na casa de Néia, como é conhecida na vizinhança, chega a faltar pão e leite. "Antes eu podia dar um mimo para as crianças. Agora, iogurte virou presente", resigna-se, relatando a tristeza de ouvir um filho pedindo algo que ela não pode dar. "Faço bolinho sem ovo, coisas assim... Sem dinheiro, a gente tem que ser criativa", conta. (C.A.)





