Entre as 50 vítimas identificadas pelo Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) nas investigações sobre exploração sexual comercial de adolescentes em Londrina, a maioria tem entre 14 e 18 anos e, segundo a promotora Susana de Lacerda, da Vara Maria da Penha, foram atraídas para manter relações sexuais com homens adultos diante da promessa de receber dinheiro ou mesmo "presentes" sedutores para esta faixa etária, como books fotográficos, tênis, megahair e até mesmo cursos de inglês. O esquema, conforme ela, é formado por vários núcleos, não necessariamente ligados entre si. As meninas, na maior parte, vêm de famílias de baixa renda e sem estrutura. "Algumas são mais assistidas, mas nestes casos acabaram expostas a aliciadoras eficazes", diz. Ouvida pela FOLHA, uma das jovens envolvidas no esquema, conta que começou a se prostituir aos 13 anos. "Foi pelo dinheiro. Eu queria ter as coisas."

Apesar das investigações terem aproximado o Ministério Público da questão, a promotora afirma que o órgão não conhece de perto a realidade da exploração sexual em Londrina. "As próprias adolescentes exploradas não procuram ajuda, porque não querem que as histórias venham à tona. Por um lado, porque continuam em situação de exploração, por outro, porque superaram e não querem se expor", afirma.

Medo e vergonha são sentimentos que permeiam os relatos das meninas, que em sua maioria não têm a compreensão de que foram exploradas, apesar da lei considerar crime de estupro qualquer relação sexual com adolescente com menos de 14 anos - consentida ou não – e enquadrar como crime a exploração sexual de pessoas com menos de 18 anos. "Elas acreditam que fizeram uma opção, mas não é bem assim. Trata-se de um desvalor por si própria, muitas vezes incentivado pelo machismo, que estabelece que a mulher é um objeto e que quando recebe pagamento por sexo trata-se de um acordo", diz. O depoimento de uma das jovens ouvidas pela reportagem reforça essa ideia. Mesmo tendo apenas 13 anos quando começou a fazer programas, ela não se vê como vítima. "Eu tinha consciência do que estava fazendo."

Outra característica comum é a baixa autoestima. "Principalmente entre as mais novas, são meninas que sentem-se tão desvalorizadas e recebem tão pouco afeto que acabam criando vínculos com estes homens mais velhos", lamenta Susana. A jovem ouvida pela FOLHA chegou a relatar que, muitas vezes, procurava determinados clientes apenas pela companhia e não pelo dinheiro. "Era gostoso sair com ele."

A promotora destaca que todas foram encaminhadas para serviços de atendimento de vítimas de exploração sexual, mas poucas permaneceram em atendimento. "Elas não se consideram vítimas. Mas quando entendem a situação e percebem que foram exploradas, deprimem profundamente", relata.

Suzana de Lacerda avalia que a sociedade também não se preocupa com este tipo de exploração carregada de preconceito social e de gênero. "São meninas de classes sociais mais baixas, de famílias que não protegem e que passam o dia sem supervisão de adultos. Elas não têm maturidade psíquica para entender a situação", denuncia.

O advogado de uma das acusadas de aliciar as meninas mais novas para a exploração sexual desabafa que ela foi tão vitimada quanto as vítimas. Segundo ele, a moça em questão teve o primeiro filho aos 16 anos, já em decorrência de um "programa", o que indica que ela estava submetida a ter relações sexuais por dinheiro ainda mais jovem. "Hoje ela tem quatro filhos e nunca recebeu pensão", diz.

Segundo ele, a moça vive em situação de pobreza e sequer tinha condições de contratar um advogado. "É uma vítima da miséria humana. Estou atendendo gratuitamente porque fiquei com pena."

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