Expectativa e fé, lado a lado
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de agosto de 2013
Micaela Orikasa<br> Reportagem Local 
A enfermeira Kátia F. Barbosa manteve um contato próximo de doentes renais e seus familiares para a dissertação de mestrado "A experiência em família frente à doença renal terminal e o transplante bem-sucedido", defendida em fevereiro deste ano.
"Explorei a repercussão da doença renal e o impacto do transplante no cotidiano do indivíduo e da família. São histórias tristes porque de um dia para o outro, elas passam a conviver com limitações. A vida para em muitos aspectos, inclusive para a família que tenta se enquadrar à nova rotina de tratamento", observa.
Kátia entrevistou 16 transplantados, homens e mulheres entre 20 e 57 anos. O tempo médio de espera variou de 40 dias a 12 anos. "Todas as falas são unânimes em afirmar que no período da doença, experimentaram o sentimento de angústia e revolta. Enquanto muitos se revoltam com a própria fé, outros se aproximam mais de Deus, se apegando mais à religião, mas todos eram alimentados pela esperança e expectativa de que em algum momento surgiria um doador compatível", conta.
Os sete anos de espera do caseiro Valdecir Patrício dos Santos, de 44 anos, foram encarados com esse sentimento. Casado e pai de três filhos, descobriu que era doente renal crônico após passar mal durante o trabalho. Apesar de nunca ter ouvido falar sobre a doença e tampouco do tratamento de hemodiálise, teve que se adaptar à nova rotina.
"Eu não urinava mais, tinha muita ânsia de vômito e sentia falta de beber água. Como a ingestão de líquido é restrita, eu caminhava pelo sítio para suar e poder tomar um pouco. O que me ajudou a enfrentar tudo isso foi minha fé. Nunca perdi a esperança", conta ele, que rezava e lia a Bíblia todos os dias.
Com o transplante realizado em 2011, Valdecir se sente um privilegiado. "Continuo rezando todos os dias, mas agora agradecendo a família que autorizou a doação. Mudei muito meu pensamento sobre doação de órgãos. Hoje, sei que um transplante muda a vida de qualquer pessoa. Me sinto bem, feliz e tenho um imenso prazer em tomar um copo de água. Algo que é simples, mas que agora faz muito sentido para mim", conclui.
Kátia acompanhou outros pacientes que aguardavam por um transplante e alguns recém-transplantados. Essa convivência, segundo ela, reforçou sua concepção sobre a doação de órgãos. "É uma atitude de extrema caridade para com outra pessoa. Acredito que se as pessoas tivessem a oportunidade de conversar com aquelas que esperam por um órgão, elas não teriam dúvida na hora da doação", conclui.


