Eu me sentia um Ayrton Senna
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sábado, 13 de outubro de 2012
Carolina Avansini <br> Reportagem Local 
Aos 52 anos, o ex-caminhoneiro Pedro (nome fictício) lamenta os quase 20 anos passados nas estradas do Brasil em uma rotina de transporte de cargas intercalada com uso abusivo de álcool, cocaína e crack. Usuário de substâncias entorpecentes desde a adolescência, ele conta que encontrou no estilo de vida dos caminhoneiros o ambiente ideal para levar o vício às últimas consequências. ''As drogas me ajudavam a ficar acordado para cumprir o prazo de entrega das mercadorias. Eu unia o útil ao agradável'', diz.
Pedro, que largou as drogas há dez anos ''por amor à família'', conta que abandonou também a profissão de caminhoneiro para não sucumbir às tentações do vício. ''O maior perigo são as amizades da estrada'', diz ele, que sofreu três overdoses na boleia do caminhão. ''A sorte é que consegui estacionar antes de 'apagar''', recorda.
Dos tempos em que vivia nas rodovias, ele lembra que, sob efeito dos entorpecentes, se sentia um ''Ayrton Senna''. ''Eu me achava o melhor motorista, não queria ninguém na minha frente e cometia imprudências'', admite. As drogas eram compradas ao longo das rodovias, muitas vezes de traficantes que ofereciam os produtos nos próprios postos de combustível ou locais de descarga que aglomeram os motoristas. ''A gente aprende a identificar quem comercializa'', conta.
A experiência também demonstrou a Pedro que os caminhoneiros usuários de drogas, na maioria das ocasiões, começam o vício com os ''rebites'' utilizados para evitar o sono. Depois, em rodas de motoristas, começam a usar outras drogas ''por curiosidade'' e acabam comprometidos. Recuperado, envolvido com as atividades religiosas e totalmente dedicado à vida familiar, Pedro se arrepende do tempo perdido. ''Minha mulher e meus filhos sofreram muito. Agora, minha vida é dedicada a eles'', afirma.
A história do motorista não surpreende quem está acostumado a lidar com essa categoria profissional. Caminhoneiros, funcionários de transportadoras, frentistas de postos e ''chapas'' (guias que também ajudam a descarregar as mercadorias transportadas) entrevistados pela FOLHA em vários pontos de aglomeração de caminhões, em Londrina, confirmaram que o uso de drogas é relativamente comum entre os caminhoneiros que trafegam pelas estradas do País.
Um gerente de empresa de cargas que trabalhou muitos anos como embarcador de caminhões, em relação direta com motoristas, relata que, entre os caminhoneiros que fazem uso de substâncias entorpecentes, ''maconha é igual cigarro''. ''Eles usam como válvula de escape, para aguentar a pressão do trabalho'', diz. Cocaína e álcool também são consumidos. ''O ambiente de trabalho favorece, porque eles estão longe da família. Tem caminhoneiro que usa droga nas viagens e 'muda' em casa, por isso os familiares quase não percebem'', relata.
Ele denuncia, ainda, que as transportadoras fazem ''vista grossa'' para o problema, até porque não sabem direito como lidar com os funcionários dependentes de álcool e drogas. ''O que importa é a carga chegar no destino'', diz. Quando o comprometimento do profissional é muito explícito, porém, o motorista acaba sendo dispensado sem muitas explicações. ''Dão uma desculpa para não carregar, mas não falam o verdadeiro motivo, até porque os caminhoneiros não gostam de conselho'', contemporiza.
Outra fonte ouvida pela FOLHA é um agenciador de cargas que trabalha em postos de combustíveis e, pelo contato direto com caminhoneiros, é frequentemente abordado sobre locais para comprar drogas. ''Eles chegam com 'conversa mole' e acabam perguntando. A maioria dos usuários é jovem'', reforça.
Adolescentes que trabalham como ''varredores de caminhão'' relataram à reportagem que, no pátio externo de uma grande empresa que concentra muitos caminhoneiros, é comum eles serem abordados sobre comércio de drogas na vizinhança. ''A gente não mexe com isso, mas de vez em quando aparece aqui um 'piá' que vende (droga)'', afirmam com naturalidade.
Em um bar próximo de um grande posto de combustíveis na região de Londrina, um caminhoneiro orgulha-se de nunca ter usado qualquer substância ilícita, mas confessa que não vive sem bebidas alcoólicas. ''Quando baixaram a lei seca proibindo a venda nos postos, passei a comprar bebidas nos bares vizinhos'', revelou, garantindo que só bebe quando não vai dirigir. (colaborou Lúcio Flávio Moura)


