Estudo revela falhas no tratamento de Aids
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de agosto de 2001
Silvana Leão<BR>De Londrina 
O Brasil investe atualmente cerca de US$ 500 mi lhões por ano na prevenção e tra tamento de Aids, e conta com um pro grama de saúde pública voltado para a área elogiado por outros países. Mas ainda registra falhas no atendimento, que têm gerado, por exemplo, desigualdade no impacto do tratamento médico de homens e mulheres infectados com o vírus HIV.
Dados relacionados às mulheres foram divulgados no final de julho em São Paulo, por pesquisadores do programa internacional Enhancing Care Initiative (ECI), criado há três anos para melhorar o tratamento das pessoas que convivem com HIV e Aids nos países em desenvolvimento. A equipe brasileira do ECI desenvolveu, entre setembro de 1999 e fevereiro de 2000, o estudo denominado Vulnerabilidade e Cuidado às Mulheres Vivendo com HIV/Aids, para avaliar a qualidade dos cuidados médicos.
A pesquisa envolveu cerca de mil mulheres soropositivas, atendidas pelos centros de referência em tratamento das cidades de São Paulo, Santos e São José do Rio Preto, municípios que apresentam alta incidência da doença.
As conclusões são preocupantes. O estudo revela que ainda é grande o número de mulheres que acreditam não estar sujeitas ao risco da Aids. Prova disso é que a maioria das entrevistadas não fez o teste do HIV por iniciativa própria. Para os pesquisadores, isso se deve em grande parte ao perfil das portadoras do vírus no País mulheres que tiveram poucos parceiros, muitas delas monogâmicas e donas de casa e a idéia, difundida no início da epidemia, de que a doença afeta apenas grupos de risco.
Foram pesquisadas 116 mulheres que tiveram filhos em 1998, período em que já era evidente um crescimento no número de novos casos de Aids entre a população feminina. Também nesta época a distribuição da medicação para evitar a transmissão mãe-filho já estava consolidada na rede de serviços públicos. O estudo constatou que naquele ano apenas 60% das gestantes com HIV receberam tratamento preventivo contra a transmissão vertical (de mãe para filho).
De todas as mães entrevistadas, 17% não receberam nenhuma orientação no pré-natal para fazer o teste do HIV. Da parcela de mulheres para a qual foi oferecido o exame, metade não recebeu explicações sobre o motivo do teste. Da outra metade que recebeu as explicações, 24% não entenderam o risco a que o bebê estava submetido e 16% não compreenderam a necessidade do uso do AZT.
Por outro lado, o estudo mostrou que, ao contrário do que se imaginava, a quase totalidade das mães pesquisadas (94%) fizeram o pré-natal e o índice de frequência às consultas foi superior ao estimado (83% das mulheres foram a mais de quatro consultas). A pesquisa também detectou falhas nas maternidades. Apenas a 70% das mulheres pesquisadas foi perguntado se eram ou não HIV positivas. Isso significa que a 30% não foi sequer perguntado sobre os riscos de transmitir o vírus para os filhos e a possibilidade de se fazer o teste rápido do HIV.
Para os pesquisadores, coordenados pelo médico José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres, professor do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo (USP), grande parte das falhas deve-se à pouca sensibilização dos profissionais da saúde para o tema. A falta de preparo pode ser notada diante da constatação de que 20% das mulheres entrevistadas sentiram-se discriminadas pelos profissionais de saúde quando receberam o resultado positivo do teste de HIV.
Os pesquisadores lembraram ainda que o País hoje tem demandas específicas das mulheres com HIV em 1981 a relação era de 121 casos de Aids em homens para apenas um em mulheres; hoje esta relação é de dois homens para uma mulher. Outra questão preocupante é que, no caso das mulheres, o problema se agrava porque na grande maioria das vezes elas são ''cuidadoras'', têm maior responsabilidade com a educação e cuidados com os filhos.


