O intenso movimento de clientes na mais nova lanchonete especializada em esfihas no centro de Londrina demonstra que bons produtos vendidos a preços justos conseguem driblar a crise. A esfiharia Ghada, recém-inaugurada, nasceu da junção de uma marca já conhecida dos londrinenses com o espírito empreendedor dos proprietários, os irmãos Firaz e Salam Obeid. Nascidos no Líbano em tempos de guerra, os jovens acumulam experiência adquirida em momentos difíceis para investir com segurança mesmo em tempos de desaquecimento econômico.
Aos 33 anos, Firas tem lembranças sombrias da infância passada no Líbano. Filho de um comandante do exército, ele nasceu em um porão porque a mãe, então com 15 anos, não podia ser levada ao hospital por causa das bombas que explodiam do lado de fora. Destruição, mutilação, mortes, corpos, túneis subterrâneos, bombas e armas são as palavras que vêm à cabeça quando pensa na situação enfrentada no país de origem. As lembranças boas são ligadas à gastronomia. "Lembro da escola, mas também de fazer azeite de oliva, pão e melado. Minha mãe, que se chama Ghada, aprendeu as receitas que usamos até hoje em uma casa no meio de oliveiras no Líbano", diz.
Firas chegou a se perder da família quando era recém-nascido, pois a mãe foi obrigada a prestar serviços em um hospital. Por motivos que considera "sobrenaturais", acabou sendo encontrado pela avó com a família que o acolheu. As dificuldades permaneceram até 1991, quando decidiram mudar para o Brasil para fugir da instabilidade. "Nossa casa foi reconstruída quatro vezes", ilustra.
O primeiro destino da família foi Foz do Iguaçu, onde ficaram por sete anos. Em 1997, mudaram para Londrina em busca de mais qualidade de vida. Na cidade, o pai revendia roupas, mas, por dificuldades financeiras, decidiu montar um "lanche" para vender cachorro quente no quintal. Foi nesta época que a comida árabe apareceu como oportunidade de negócio. Um médico que atendeu o patriarca da família foi convidado a provar a comida árabe feita por Ghada. Se encantou pelo sabor e começou a levar grupos de amigos para saborear as iguarias, mediante encomenda. "Eles comiam nas mesas de plástico do cachorro quente", diverte-se.
O movimento aumentou e surgiu o restaurante Ghada, que ganhou o gosto dos clientes pela comida de alta qualidade a preços justos e ambiente descontraído. "Fazíamos as receitas da minha mãe e servíamos no quintal, que foi adaptado para acomodar um restaurante", conta.
O negócio cresceu rapidamente e Firas convenceu o pai a transferi-lo para um endereço mais nobre. Contratou arquitetos para fazer o projeto do novo imóvel e o resultado foi uma casa sofisticada e moderna, que acabou "assustando" os clientes acostumados com a informalidade. Neste local, o Ghada funcionou por quatro anos, mas a crise de 2008 e o surto de Gripe A provocaram queda no movimento, levando-os à decisão de encerrar o restaurante. "Nos capitalizamos rapidamente, mas ficamos sem nada", conta ele, que foi trabalhar com importação de vinhos em Foz do Iguaçu para ganhar a vida. Os pais voltaram a cozinhar em casa, atendendo encomendas. E a excelente comida árabe servida no restaurante no quintal ficou adormecida na lembrança dos clientes.
Em 2013, Firas resolveu retornar para perto da família. Formado em gastronomia e apreciador da cozinha, teve nova ideia para ganhar dinheiro e passou a vender marmitex no Shopping Popular. Sempre inovando, passou a levar esfihas para os clientes do almoço e descobriu que os salgados feitos a partir da receita da mãe tinham muita saída. "Vendia 150 bandejas em 15 minutos" recorda ele, que deu nova guinada e montou uma pequena fábrica de esfihas, comercializadas principalmente em sites de compras coletivas.
Há dois meses, em parceria com Salam, resolveu investir em novo empreendimento. Assim nasceu a esfiharia Ghada, com os equipamentos da fábrica e reforma de um ponto comercial feita pelos irmãos com as próprias mãos. Em tempos de crise, a iniciativa agradou. "Aqui é possível comer com R$ 5,00", conta ele.
Nascido em meio à guerra e devastação, Firas já enfrentou muitas adversidades. "Consegui me reerguer porque tenho coragem e espírito empreendedor. Acredito muito no meu nome, que batizou um guerreiro medieval", compara. O novo negócio, porém, foi gestado com muita estratégia. "Reestruturamos o modelo de negócio do restaurante Ghada, que foi simplificado. A ideia é que seja acessível", conta ele, que só não abre mão da tradição e qualidade das receitas. "É preciso aprender com as crises, mas não dá para esperar as dificuldades passarem para colocar as ideias em prática", ensina.

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