ESPECIAL | O lobo-guará é a nova garoupa

Animal símbolo do Cerrado foi escolhido para estampar a nova cédula de R$ 200 que chega para desbancar as “azuizinhas” que reinavam absolutas desde a criação do Plano Real

Celso Felizardo - Grupo Folha
Celso Felizardo - Grupo Folha

Imagem fictícia - Fotomontagem Folha Arte
Imagem fictícia - Fotomontagem Folha Arte | Patricia Naomi Sagae
 

Há 26 anos ela reina soberana nas águas não tão plácidas da economia brasileira, mas os dias de glória da garoupa estão contados. O novo maioral da bicharada despontou com passadas largas e colocou um focinho à frente na corrida pecuniária. É o lobo-guará, símbolo do Cerrado brasileiro. O animal foi o escolhido pelo Banco Central para estampar as cédulas de R$ 200, o novo valor máximo do sistema monetário nacional.


A nova cédula deve entrar em circulação até o final deste mês. A previsão é que sejam impressas 450 milhões das novas notas ainda este ano, o equivalente a R$ 90 bilhões.



O Banco Central gastará R$ 113,8 milhões a mais do que o previsto no orçamento anual para a produção das novas notas e para a impressão de mais 170 milhões de cédulas de R$ 100. O BC não divulgou imagens da representação da cédula por questões de segurança.


A explicação para a introdução de mais um bicho na família real, segundo o CMN (Conselho Monetário Nacional), é atender a maior demanda de papel-moeda na pandemia do novo coronavírus. Apesar de o governo afirmar que se trata de uma medida preventiva à falta de cédulas, o sumiço das notas já provocou a trava da liberação do auxílio emergencial e levou a Caixa Econômica a limitar os saques. Quem recebe benefícios emergenciais pelo aplicativo da instituição tem que aguardar alguns dias para fazer a retirada em dinheiro.


Imagem fictícia - Fotomontagem Folha Arte
Imagem fictícia - Fotomontagem Folha Arte | Patricia Naomi Sagae
 


A escolha do lobo-guará comprova o ditado popular que diz que os últimos serão os primeiros. Em 2001, o BC fez uma enquete com a população para que as pessoas elegessem os animais ameaçados de extinção que gostariam de ver estampados nas cédulas. A preferida dos eleitores foi a tartaruga-marinha, que foi parar na nota de R$ 2. Em segundo lugar, o mico-leão dourado ganhou a nota de R$ 20 no ano seguinte. 


O lobo-guará, terceiro lugar na consulta popular, precisou aguardar 18 anos para enfim estar no topo da “cadeia alimentar”, ao menos na graduação das cifras monetárias. Na vida real, no entanto, a realidade não é tão favorável ao maior canídeo da América do Sul. Na lei da floresta, quem manda são os felinos. Ironicamente, um dos maiores predadores do lobo-guará é a onça-pintada, que estampa a cédula de R$ 50. 


“A onça-pintada é um predador natural do lobo-guará que, na natureza se caracteriza por ser um animal oportunista, se alimentando de aves e pequenos roedores. Mas como também come frutas, acaba por ajudar a dispersar as sementes nos biomas nos quais está inserido”, relata Marcos Shiozawa, médico veterinário especialista em animais silvestres.


O lobo-guará habita a porção mais central da América do Sul. No Brasil, é encontrado praticamente em todo o cerrado e nas áreas de campos da região sul. Por ser uma espécie com preferência por campos abertos, também tem sido encontrada em áreas desmatadas da Amazônia e da Mata Atlântica. No Paraná, aparições recentes foram registradas no Oeste, em Foz do Iguaçu; nos Campos Gerais, em Tibagi; e no Norte Pioneiro, em Wenceslau Braz e Nova Santa Bárbara.


ESPECIAL | O lobo-guará é a nova garoupa
Divulgação/Unifil
 


No caso do Norte Pioneiro e dos Campos Gerais, não é por acaso o aparecimento dos lobos. As regiões concentram a principal das pequenas manchas de cerrado do Paraná. O Cerrado é o segundo maior bioma do país. Estende-se por 15 estados até terminar no Paraná. Apesar de serem encontrados com mais facilidade neste bioma, sua característica de percorrer grandes distância e se adaptarem a áreas de plantação provocam os aparecimentos em áreas urbanas.


Se encontrar um lobo-guará na natureza é coisa rara, a vendedora autônoma Carla Domingues espera que o contato com a nova cédula seja mais frequente. “A de R$ 100 já está difícil de ver, a de R$ 200 acho que vai ser pior ainda. Mas estou curiosa, tomara que eu pegue uma logo”. A motorista de aplicativos Vanilda Rodrigues Pereira também espera conhecer a nota do lobo em breve, mas com uma condição: “Que não seja em uma corrida curta, porque aí complica o troco”, brinca. “Não sei se havia necessidade de mais uma cédula, mas o que fica de bom disso aí é que as pessoas se atentam para a importância da preservação dos animais”, completa.


Entre curiosidade e polêmicas, o “Duzentão” tem tudo para entrar na lista das notas mais emblemáticas do país, como os animais da família do real e outras que de tão icônicas ainda são lembradas por seus apelidos: Abobrinha (Mil Cruzeiros, pela sua cor), Barão (Mil Cruzeiros, com o busto do Barão do Rio Branco) e a Baiana (em referência à ilustração da cédula de Cinquenta Mil Cruzeiros Reais). Desde 1942, o Banco Central já emitiu quase 70 modelos de cédulas diferentes.



Xamã se torna xodó de hospital veterinário 


Resgatado na zona urbana de Nova Santa Barbara, no Norte Pioneiro, no sábado (25), lobo-guará de cerca de dois anos de idade recebe cuidados antes de ser reintroduzido na natureza
Resgatado na zona urbana de Nova Santa Barbara, no Norte Pioneiro, no sábado (25), lobo-guará de cerca de dois anos de idade recebe cuidados antes de ser reintroduzido na natureza | Divulgação/Unifil
 


Com movimentos lentos e olhar desconfiado, o jovem lobo-guará Xamã encara cabisbaixo a movimentação de curiosos do outro lado da porta de vidro. Há uma semana ele recebe cuidados nas modernas instalações do Hospital Veterinário da Unifil, na zona sul de Londrina. No sábado passado, foi resgatado na área urbana de Nova Santa Bárbara, no Norte Pioneiro, pela Polícia Ambiental.


O bom estado de saúde do animal empolgou a equipe de veterinários. Nos últimos oito anos, desde que a instituição firmou parceria para cuidar de animais silvestres resgatados pela Força Verde, apenas outros dois exemplares da espécie foram levados até a unidade, mas nenhum deles sobreviveu aos ferimentos. A expectativa é grande porque Xamã deverá ser o primeiro a ser reintroduzido na natureza, o que deve ocorrer nos próximos dias em lugar ainda não definido.


“É uma emoção muito grande, porque é a essência do nosso trabalho poder devolver o animal à natureza em plenas condições para que ele possa se restabelecer. É o ápice da satisfação profissional”, emociona-se Mariana Cosenza, coordenadora do Hospital Veterinário da Unifil.


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Celso Felizardo - Grupo Folha
 


A altura de quase um metro entre o chão e a cernelha (base do pescoço), e o peso de 24,5 kg são considerados compatíveis para a idade dele, cerca de dois anos, explica o médico veterinário especialista em animais silvestres da unidade, Marcos Shiozawa. “O lobo-guará é um animal leve que tem como característica comportamental ser bem tímido, solitário. Muitos dos que aparecem nas cidades são os mais jovens, que ainda assimilaram seu espaço territorial”, detalha Shiozawa.


Ao chegar na unidade, Xamã foi anestesiado, passou por uma bateria de exames e agora é mantido em observação antes da soltura. Ele recebe duas alimentações diárias. Uma pela manhã e outra no início da noite. Por ser um animal onívoro, assim como o homem, a dieta inclui carnes e frutas, devoradas com vontade pelo bichinho. 


Mariana e Shiozawa acreditam que a representação de animais ameaçados da fauna brasileira nas cédulas de real ajuda na conscientização. “É uma forma de educação ambiental. É importante que as pessoas conheçam melhor cada espécie e a riqueza de nossa fauna”, concordam. Ao final da entrevista, os dois voltam ao atendimento de pacientes que não param de chegar: seriemas, ouriços, gatos-do-mato e, em maior quantidade, aves. “É um trabalho muito gratificante”, orgulha-se Mariana.


Seriema teve que passar por uma cirurgia
Seriema teve que passar por uma cirurgia | Celso Felizardo - Grupo Folha
 



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Divulgação/Unifil
 



Nova cédula deve reduzir custos do governo 

A criação da nota de R$ 200 está relacionada com a pandemia e a incerteza econômica, explica a Andreia Moreira da Fonseca, doutora em Economia e docente da Unopar Catuaí. As incertezas econômicas geradas pela pandemia, segundo ela, fez com que as pessoas passassem a guardar dinheiro em casa, aumentando a demanda por cédulas. 


Para diminuir os custos de impressão e logística das notas em curto prazo, o Banco Central e o governo então resolveram criar uma nota de valor mais elevado. “Quando você lança uma nota de R$ 200, você tem redução no custo de impressão, de transporte do valor e, ao mesmo tempo, satisfaz a demanda da população nesse momento.”


Esse fenômeno que faz as pessoas guardarem dinheiro em casa, chamado de “entesouramento”, já aconteceu em outras épocas, como nos anos 1980 e 1990, quando as taxas de inflação eram altíssimas, lembra Andreia. A doutora salienta, no entanto, que a criação da nova cédula não significa que o governo vai fabricar um maior número de notas. “Simplesmente haverá substituição. Terá a circulação da nota de R$ 200, mas não vai ter aumento de base monetária, quantidade maior de notas em circulação.” 


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iStock
 


O mesmo aconteceu com a retirada das notas de um real do mercado e a sua substituição pela moeda de mesmo valor. Naquela ocasião, o objetivo também era reduzir custos. Embora a fabricação da moeda tenha um alto custo, ela pode circular por mais tempo, diferentemente da nota, que se deteriora mais rapidamente. 


O único ponto negativo disso tudo, a doutora pontua, poderá ser a dificuldade de conseguir troco. Mas o uso do dinheiro físico, ao contrário do que se pensa, anda mais forte do que nunca,. “Para você ter uma ideia, segundo o Banco Central, 60% dos pagamentos feitos no Brasil ainda são em dinheiro”, finaliza Andreia. (Mie Francine Chiba/Reportagem Local)



Espécie está ameaçada de extinção 

O lobo-guará é o maior canídeo da América do Sul e tem uma distribuição bem ampla no Brasil. Sessenta por cento da população desses animais estão no bioma do Cerrado, mas também há ocorrências no Pantanal, parte do Sul, caatinga e em regiões de Mata Atlântica. No Paraná, ele predomina na região dos Campos Gerais, nos municípios de Ponta Grossa, Piraí do Sul e Jaguariaíva. 

 

 

 

Lobo-guará
Lobo-guará | iStock
 


Biólogo doutor em biodiversidade e conservação e pesquisador da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Alan Pereira relata que em mais de oito anos de monitoramento do lobo-guará no Estado, contabilizou apenas 20 registros da espécie. “É bem raro. Eu trabalho com mamíferos há alguns anos e tenho registros oportunos. Diferente de outros canídeos, como o lobo da América do Norte, o lobo-guará é solitário, só vai formar par na época do acasalamento. Ele é vagante”, explicou.  


Na região de Londrina, o biólogo afirma nunca ter registrado a presença desse animal. Ele conta que o mais próximo de Londrina foi em Telêmaco Borba. Mas segundo Pereira, a espécie pode andar 30 quilômetros por noite atrás de alimento ou à procura de uma fêmea e a área de vida dele tem abrangência de 50 a 120 quilômetros.  


O lobo-guará é onívoro, o que significa que tem uma dieta mista, composta de frutas e carnes. Quando não encontra pequenos animais para as suas refeições, como tatus, aves e roedores, ele se satisfaz com frutos silvestres. O seu tempo de vida na natureza varia de dez a 15 anos. Quando mantido em cativeiro, o tempo de vida pode se estender um pouco mais. 


No Brasil, a espécie é considerada vulnerável à extinção e no Paraná, foi colocada na categoria “criticamente ameaçada”. Os predadores naturais são as onças, como a suçuarana e a onça-pintada. Mas a principal ameaça são o homem e a urbanização. “Há muitos registros de atropelamentos e de fazendeiros que matam os lobos com medo de ataques às criações de pequenos animais ou até a crianças, mas isso são eventos raros de acontecer. O lobo-guará é um animal dócil, mas arisco. Ele tem as patas grandes e as orelhas estão sempre em pé, um sinal de alerta. Se você cruza com ele na natureza, ele vai te cheirar e sair correndo como um cachorro assustado”, explicou Pereira. E assim como um cachorro, o lobo-guará não uiva, mas late com a intensidade de um cachorro de grande porte. 


O contato com animais domésticos também representa um risco para a sobrevivência da espécie. Doenças que acometem os cachorros, como a sarna, podem ser transmitidas ao lobo-guará. (Simoni Saris/Reportagem Local)

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Imagem fictícia - Fotomontagem Folha Arte | Patricia Naomi Sagae
 





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