Muitos documentos relativos à escravidão desapareceram. Todavia, fontes importantes permaneceram, como as cartas de alforria, registradas em cartório, de que Stuart Schwartz analisa uma amostra de mil, oriundas da Bahia. Ele afirma que o fenômeno das emancipações alia razões humanitárias e econômicas, como no caso emblemático de uma senhora que liberta um escravo ''por causa dos bons serviços da mãe, porque ele nascera na casa-grande e ela o criara, e devido aos 100 mil réis que ele me deu para isto''.
A outra alternativa dos escravos para a reconquista da liberdade eram as rebeliões e fugas, originando os quilombos, focos de resistência em que podem ser identificadas formas de organização de origem africana.
Discutindo, igualmente a partir de documentos, os laços de família e a escolha ou aceitação de padrinhos, o autor conclui que raramente os filhos de escravos eram apadrinhados pelos senhores, contrariando o suposto paternalismo que em geral se atribui a estes.
Apesar da escassez de fontes primárias, principalmente no que se refere à perspectiva dos escravos sobre sua própria condição, Schwartz traça um painel competente que se articula em dois eixos básicos: a amplitude do sistema escravocrata, que perdurou por quase 400 anos no Brasil, e as ações dos escravos em busca de afirmação, mesmo num contexto desfavorável.
Destaca questões a serem pesquisadas com maior profundidade e relaciona uma vasta bibliografia, de cerca de 250 títulos. Dessa forma, estimula novos estudos sobre aspectos tão relevantes quanto ainda mal compreendidos dessa fase marcante de nossa História, essencial para que possamos avaliar as desigualdades do Brasil contemporâneo. (S.A.S.)
ESCRAVOS, ROCEIROS E REBELDES, de Stuart Schwartz, tradução de Jussara Simões. EDUSC, 300 págs.

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