Fernanda (nome fictício), de 20 anos, também encontrou na prostituição o único caminho para garantir a própria sobrevivência após uma história de abusos e abandono. Nascida no litoral paulista, ela foi abandonada pela mãe e perambulou pela casa de conhecidos até os 10 anos. Abusada sexualmente pelo avô e pelo irmão adolescente, acabou encaminhada para um abrigo onde viveu "os melhores anos de toda a vida". "Tinha comida, presente, eu ia para a escola e a professora gostava de mim", recorda a moça, que aos 15 anos retomou o vínculo com a mãe e, convencida a não voltar à instituição, passou a ser maltratada na casa materna. Para não apanhar mais, decidiu fugir.
Foi nessa época que começou a aprender que podia trocar ajuda por sexo. Acolhida por um homem "que tinha até cabelos brancos", morou com em ele em uma "favela" por um tempo, mas a mãe descobriu o paradeiro e ela voltou a se esconder. Escolheu Londrina como destino por ter parentes na cidade. Não recebeu a acolhida que esperava e, com ajuda de outro homem, passou a vender DVDs na avenida 10 de Dezembro.
"Ganhava muito pouco, não tinha o que comer. Os homens que compravam de mim viviam dizendo que eu era bonita e podia ganhar muito mais dinheiro fazendo 'outra coisa'. No desespero, resolvi encarar as ruas e fui fazer ponto", revela a moça, que na época tinha acabado de fazer 16 anos. Nos pontos de prostituição que frequentava, conta que era comum encontrar outras meninas até mais jovens que ela, muitas fazendo programas para sustentar o vício nas drogas.
Fernanda lembra que chegou a fazer 17 programas em uma noite. Os clientes perguntavam a idade, ela respondia com sinceridade e, mesmo sabendo que era adolescente, eles continuavam a negociação. "Acho até que eles gostavam porque eu era 'novinha'", diz. Entre os "clientes" que atendeu, garante que havia delegados, policiais e até líderes religiosos.
Após apanhar muito de um homem que não quis pagar pelo programa, a moça entendeu que corria riscos e resolveu sair das ruas. "Escolhi ficar viva", comenta ela, que atualmente é atendida pela rede de acolhimento de jovens em situação de risco. Encontrou um companheiro que conhece sua história, já tem um filho de pouco mais de um ano e aguarda o nascimento do segundo bebê. O plano agora é cuidar da família. Atenta à realidade, porém, Fernanda fez questão de dizer à reportagem que comemorou a prisão dos envolvidos no esquema de exploração sexual em Londrina. "Não vão mais poder causar mal a ninguém. Queria dizer às mães que fiquem de olho nas suas filhas", aconselha. (C.A.)

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