Era uma vez um jardim
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sábado, 16 de agosto de 2014
Fábio Galão<br> Reportagem Local 
Em 8 de novembro, completam-se 15 anos da inscrição do Cine Teatro Ouro Verde no Patrimônio Cultural do Paraná. Apesar do orgulho da inclusão de uma das obras mais icônicas de Londrina na lista de bens tombados pelo Estado, arquitetos e profissionais ligados à preservação da história londrinense lamentam o que consideram um equívoco.
O Ouro Verde, que está sendo reconstruído após o incêndio de 2012, faz parte de um projeto que inclui outros itens que não foram tombados pelo patrimônio: o vizinho Edifício Autolon, um bloco que liga as duas construções e um jardim, que foi destruído para a construção de uma loja. Especialistas apontam que a falta da proteção que poderia ser proporcionada por um tombamento foi decisiva para a perda do jardim e da ideia original do conjunto.
O projeto teve início em 1948, quando Celso Garcia Cid, Ângelo Pesarini, Jordão Santoro e outros sócios da Sociedade Auto Comercial de Londrina, a Autolon, revendedora da Chevrolet na cidade, tiveram a ideia de construir um edifício comercial na esquina das ruas Maranhão e Minas Gerais. Entusiasta da sétima arte, Santoro sugeriu que o empreendimento incluísse um cinema. O projeto foi encomendado aos arquitetos João Batista Vilanova Artigas, curitibano radicado em São Paulo, e Carlos Cascaldi o irmão deste, o engenheiro Rubens Cascaldi, executou a obra.
Embora todo o complexo tenha sido planejado de uma vez, com o edifício comercial, um restaurante com um jardim em frente e o cinema, os prédios foram concluídos em períodos diferentes. O primeiro foi o Autolon, em 1951. O Cine Ouro Verde foi inaugurado na véspera do Natal de 1952. E o Restaurante e Confeitaria Calloni, apenas em 1959. Este foi fechado cinco anos depois e o imóvel teve outros usos desde então.
Uma ruptura decisiva aconteceu em 1978, quando a Universidade Estadual de Londrina (UEL) comprou o Ouro Verde, com recursos dos governos Federal e do Estado, e o converteu em cine teatro universitário. Os demais componentes do complexo permaneceram privados. O caráter público do cine teatro facilitou para que fosse o único item do conjunto tombado, 21 anos depois da aquisição pela UEL.
"O tombamento de prédio público é feito por ofício e não precisa passar por vários trâmites. Simplesmente comunica-se o ente público proprietário. Quando é um espaço privado, o processo é mais complicado. É dado ao proprietário direito de se manifestar, abre-se um prazo, se o dono for contra, o conselho se reúne para analisar a manifestação... E assim por diante", explica Rosina Parchen, coordenadora do Patrimônio Cultural do Estado. "Sempre se soube que o conjunto era todo do Artigas, mas por ser prédio público decidiu-se apenas pelo tombamento do Ouro Verde."
Rosina acredita que, apesar de o espaço do antigo Restaurante e Confeitaria Calloni ser privado, "a prefeitura não deveria ter autorizado" o fechamento do jardim. "O Estado não tinha como fazer nada, pois não era um local tombado", argumenta. A coordenadora diz que nada impede que a comunidade londrinense se mobilize para reivindicar o tombamento do restante do conjunto e a reconstrução do jardim.
"Para nós, sempre o interesse é que a iniciativa parta de uma comunidade - se um grupo de arquitetos de Londrina entender que isso (o tombamento de todo o projeto) deve acontecer, por exemplo. O Estado pode fazer o processo de tombamento a qualquer momento, mas entendemos que é melhor que parta da comunidade local, lutando pela preservação do espaço", afirma.
A área entre o Ouro Verde e o Autolon pertence ao empresário Rachid Zabian desde a década de 1990. Antes de construir sobre o jardim o prédio que depois seria alugado para lojas, pouco após o tombamento do cine teatro, ele consultou a prefeitura e a coordenação do Patrimônio Cultural do Estado. Como o espaço não era tombado, não teve impedimentos para fazer a obra. Após o incêndio do Ouro Verde, chegou-se a cogitar a desapropriação do terreno para que fosse feita uma rota de fuga do cine teatro, possibilidade que abriria espaço para a reconstrução do jardim. Mas as conversas não avançaram.


