ERA DO REGISTRO O risco da falta de limites na web
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sábado, 19 de maio de 2012
Silvana Leão <br>Reportagem Local 
O paciente atendido no Hospital Universitário de Londrina que foi vítima da divulgação não autorizada da gravação de uma cirurgia para retirada de um peixe de seu intestino e a atriz Carolina Dieckmann, que foi surpreendida com fotos íntimas suas circulando por computadores alheios, são vítimas de um comportamento que só se intensifica e que exige muita atenção: o uso da rede virtual para compartilhar e fazer de tudo, o tempo todo. É como se, nesta ''era do registro'', nada pudesse ficar sem ser mostrado ou comentado.
Um dos maiores perigos deste tipo de comportamento, segundo o delegado-chefe do Núcleo de Combate aos Cibercrimes (Nuciber) da Polícia Civil, Demetrius Gonzaga, é justamente a falta de limites. ''Diante da facilidade de estabelecer novas amizades nas comunidades virtuais, as pessoas se soltam mais do que deveriam. Na busca por um 'ombro cibernético amigo', elas não tomam as devidas precauções. E este é um risco muito grande, porque é justamente desta forma que agem os criminosos'', alerta o delegado.
Segundo Gonzaga, as redes sociais se transformaram em ''confessionários cibernéticos'', que são utilizados pelas pessoas para postar detalhes do seu dia a dia. ''Muitos se esquecem que os mal intencionados se infiltram nestas comunidades, passam dias e dias se dedicando justamente a garimpar informações e montam verdadeiros dossiês com a finalidade de cometer crimes.''
Gonzaga lembra que outro grande perigo é deixar o conteúdo disponível aos usuários em geral, sem restrições para compartilhar informações. ''Isto é comum entre os adolescentes, que têm uma visão de liberdade diferente em relação ao adulto, que age com mais cautela e com base em sua experiência.'' Esta falta de maturidade, de acordo com o delegado, exige acompanhamento e orientação constante por parte dos pais.
O delegado do Nuciber foi um dos que defenderam na Câmara Federal, no ano passado, a manutenção do acesso da polícia a dados das conexões (como data, horário da criação de comunidades, perfis ou comentários) por meio do IP (Internet Protocol Adress) de cada máquina, viabilizando investigações que rastreiam ações relacionadas a possíveis delitos. ''Hoje em dia os criminosos sempre se valem da tecnologia, seja para se comunicar, seja para comemorar seus feitos.''
O Nuciber é pioneiro no País na implantação de um serviço especializado em delitos na internet, e está em atividade desde 2005. De lá para cá já foram solucionados mais de 25 mil casos, por uma equipe que inclui profissionais de diversas áreas.
A experiência do núcleo voltado a cibercrimes transformou o Paraná em uma referência no assunto, mas o delegado se diz preocupado com a situação em outras regiões do País. ''Das 27 federações brasileiras, só oito contam com este tipo de serviço. Para se ter uma ideia, apesar do aumento nas ocorrências dos crimes na internet, em alguns estados nem chega-se a instaurar procedimentos investigativos, o que deixa os criminosos muito à vontade. Esta situação é preocupante, pois o País, que encontra-se às vésperas de grandes eventos esportivos, encontra-se muito suscetível'', avalia.
Gonzaga está desde o início à frente do Nuciber, que hoje treina e apoia policiais de outros estados. Só no ano passado 3,6 mil casos foram investigados. ''De 60% a 65% das ocorrências referem-se a crimes contra o patrimônio, sendo que em primeiro lugar está o desvio de valores de contas correntes, seguido de estelionato. Depois vêm os casos de falsa identidade e crimes contra a honra, como calúnia, injúria e difamação.''


